Os olhos...

Foi depois de um tempo de longa espera que as coisas "transpareceram" para mim. Eu cresci achando que podia fazer qualquer coisa, e não sendo coisa alguma... eu sei que há muitos como eu por aí, na verdade, uma grande parte da população. Eu procurei ser e saber o que eu podia, fui, tentei... me matriculei e cursei por um tempo os cursos de Direito, Medicina Veterinária e Engenharia Mecânica. No último, quase acreditei que teria vocação, depois de muitas disciplinas... desisti. Eu não tinha certeza de nada e nada podia fazer além de tentar. Talvez eu devesse ter caminhado para longe antes de tentar qualquer coisa, pois todo mundo que não possui certeza tem em sua vida algo que chamei de "jornada espiritual". Eu passei até hoje nesta jornada, e penso que seguirei por ela até os últimos dias. Eu sou assim... 
Mesmo que a sensação de incertezas seja uma companheira estranha e de certa forma saudável, persisto em pensar que ela traz algum sofrimento, sempre. As respostas vem por perguntas... assim como cicatrizes que são oriundas de feridas. Eu levei trinta anos para saber o que eu era e sou... e foi a persistente mania em escrever que me levou a acreditar na fotografia. E da fotografia vieram novas perguntas, novas propostas da reflexão e novos caminhos. Em uma entrevista, Sebastião Salgado disse em poucas palavras... o fato de ele ter um filho com necessidades especiais fez dele um profissional com olhar diferente. Talvez, de outra forma a realidade, seria ele outro profissional. Penso, que de toda forma ele têm plena razão... de outra forma não seria um grande profissional, com olhar assíduo e permissivo para novos trajetos da reflexão que o conduzem ao olhar. Eis que os homens são felizes quando algo não parece plenamente perfeito, assim entendo, e atribuo o sofrimento, mesmo que mínimo e temporário cíclico, uma porta aberta ao sucesso dos pensamentos. O olhar, os olhos... são estes que nos trazem para perto de tantas realidades. A ligação da visão ao atributo da sensibilidade, e sensibilidade é uma inteligência, são frações indispensáveis do que constrói a fotografia e toda ciência envolvida. Pasme... para ser forte é preciso coragem! E homens sem sensibilidade não podem ser corajosos, caso contrário, não são homens, são animais movidos por um instinto incapaz de separar ódio e compaixão.