A estrada nos olhos de quem já vai chegar...

Audax 600 km da Sociedade Audax de Ciclismo 2014.
Em uma das minhas atividades de repórter fotográfico, tenho oportunidade de uma reflexão muito especial. Nós nos acostumamos com esta era do automóvel, que já não é a era do automóvel que meu avô conhecia... no tempo do meu avô, ele viajava pela América do Sul no volante de um fusca 1964, 1200 cc, 36cv e tensão de 6V. Ele viajava com minha avó neste fusca, a velocidades incríveis de 80-90 km/h. Hoje, eu viajo com um mille fire 2013, de 1000 cc, 66cv e tensão de 12v. Algumas poucas pessoas saberão qual a diferença entre os automóveis, mas baseado nos conceitos muito mais modernos, o uno (mille fire) é um "projeto de corrida" perto daquele fusquinha. Com 30 cavalos menos que o uno, o fusca ia fazendo aquele clássico barulho, alimentado pelo carburador solex 28 pci... quase se rachando, esquentando e parando de tempos em tempos. O fusca parava, e eu via meu avô pacientemente conversando comigo a respeito, eu sentado ao lado dele nos anos 80 e explicava-me: "Beto, o fusca parou pq entrou ar no carburador... quando esquenta, a bomba de gasolina produz bolhas que entram no tubo de gasolina!" Ele descia do carro, abria o capô do motor, as vezes dava umas batidinhas com o cabo do martelo para ajudar as bolhas a saírem da bomba, logo estávamos de volta no caminho. O fusca 1200 de 1964, era um belo projeto se pensarmos nos automóveis do seu tempo, mais ainda se avaliarmos o que havia antes disto. Naquele tempo, ninguém saia de casa prometendo o dia que iria chegar, menos ainda a hora, como fazemos na atualidade. Hoje, os carros mais populares racham a estrada, silenciosos como nunca foram, sobem ladeiras íngremes em 4ª marcha, quase sem perder velocidade. A tecnologia superou as expectativas do viver com sabor de algumas situações. Não damos valor... nem para estradas longas, tampouco para a aventura que podemos viver em um fusca que anda e pára ao sabor do calor. Meu avô, topógrafo e sonhador do volante do fusca, descansa em algum lugar do cemitério João XXIII. Eu, fotógrafo aos 38 anos, percorro as ruas, vias e estradas deste mundo, em busca de respostas que nunca vou encontrar... eu vivo o fotojornalismo, descoberto tardiamente e que circula em minhas células. Eu deixei muitas coisas para trás, com orgulho, tal como a faculdade de engenharia mecânica e os amigos que perdi para o tempo. A estrada é assim, a gente vive como se já fosse chegar, mas ela deve ser sentida em cada segundo. Senta em uma pedra de frente para um belo cenário, e finge que não há hora para ir embora... vc vai ver insetos, o vento, e coisas da natureza que jamais vai esquecer. Um amigo, ao ouvir esta história contada pessoalmente, me disse: "Beto, tu é louco sem fumar ou beber nada!" Eu sorri, agradeci e nós fomos embora, de volta para a rotina.
A estrada é uma expectativa para quem pensa que já vai chegar, mas eu quero viver o momento, um segundo, um clique de cada vez... minhas lembranças, compartilho, sempre, mas só eu sei o que elas representam. Tenho saudade do meu avô, da minha cadela Lua, de sentir os pés na areia e na água gélida do mar de setembro. Setembro... te amo!