Do alto da Duque de Caxias sobre a Borges de Medeiros

Porto Alegre, 2015

Porto Alegre, 2015
     Não há memórias tão estáveis quanto fotografias... hoje ou para um amanhã. As pessoas vão, chegam, chegam outras, a fila anda... na terra, nada fica eternamente. A mudança é diária. Não haverá novamente a mesma foto, mesma lembrança, nem os mesmos personagens. Sou mais um, assim como tu, passageiro de um par de calçados que me levam e trazem dentro desta cidade. Hoje aqui, logo ali uns sete km de distância, e vou voltar. Aqui em Porto Alegre, querendo ou não, minha casa é... é onde residem meus amores, também temores e lembranças da idade em que eu via tudo diferente. Me perdoem se existe simplicidade em demasia em minhas palavras e lembranças, mas acho que as coisas são mais simples do que pintam, e na ausência de cores esta também a poesia. Dignidade é algo que pode ser tão simples, tão complicada... dignidade é algo construído com tijolos maciços de superfície imperfeita e áspera, como a violência das grandes cidades. Não nos façamos de vítimas para este sistema que esconde mistérios para quem arromba um automóvel para roubar pequenos pertences, ou casas para levar utensílios baratos como velhas panelas de alumínio. O que é caro para alguns, dinheiro para outros, é apenas reflexão para outros poucos... não me prende o dinheiro de um automóvel caro, tampouco relógio de ouro, outrora, vejo momentos banais como grandes fontes de riqueza. O que é sujeira para alguns, de marginalizados viventes que pintam assinaturas sem sentido nas paredes dos prédios altos, para observadores que pensam nos motivos, há, entre linhas, algum código sem conspiração, apenas resultante de uma sociedade adoentada. Não é grafite... é pixação! Não tem motivo, apenas sintoma! O vento me leva de um lugar para outro, enquanto trabalho, me chamam de andarilho, me descrevem como louco, como estranho, como sem barreiras e sem objetivos. Todavia, objetivos tenho, são tão grandes que nem posso guardar. Escrevo e fotografo em busca de respostas que não poderão ser respondidas, eu acho! Tento dar uma passada de cada vez, trabalhando, colocando sentido em minha estrada, porque de outra maneira, nada faria sentido. As pessoas agem sem sentido... elas são máquinas dotadas de emoção, motivadas por nem sabem o que, mas eu sempre tenho motivação. Minha motivação é fotografar... e esta é apenas arte, sobre o plano chapado de três dimensões, cuja a vida passa, começa e termina, e na próxima passada, tudo estará eterna e ciclicamente diferente. Eu ponho reticências em meu nome pq estou em constante aprendizado... tenho mais 46 anos pela frente!

Roberto Furtado...