Quando a fotografia é um sucesso do fracasso social...

Imagem meramente ilustrativa. Oceano Atlântico, Brasil, 2014.
"Quando o menino de dois anos foi visto na beira do mar..." Esta é a frase mais comentada na semana. Olhamos para o mar e esquecemos que eles são oceanos. Viajamos, muitas vezes, horas para ver o mar e passar as férias, mas esquecemos que para tanto tempo andando em terra há mais uma infinidade para cruzar as águas e chegar a outro continente. Os continentes não são ligados, mas os oceanos são... e eles servem de fronteiras. Os oceanos são como cercas em tempos modernos. Quem vive em zonas de guerra e conflito entende que a única saída é arriscar. Ir... se jogar em uma arriscada aventura cujo o desfeche é incerto. Poderia ser bom, pois sair de uma zona de guerra parece mais seguro. Aventurar-se em um nova vida, com outro idioma, bem, isto me parece difícil... mas tamanho é o desespero para um pai, que arrisca tudo que tem para um presente perigoso e um futuro difícil. Embarcados, os sonhos seriam, se o futuro reservado fosse melhor. Não há alguém para responsabilizar quando uma tragédia é acidente, mas o desenrolar da história aponta para uma guerra. E guerras sempre possuem um "culpado". De estranha forma, quem produz uma guerra não costuma ter esta preocupação, pois de outra maneira não daria início a este ciclo de indesejadas revelações do tempo. A cada minuto, por algum tipo de guerra, são mortos meninos, homens que cresceram. Ninguém é grande suficiente para enfrentar uma guerra. A roleta russa do risco é independente de competência.., o projétil sempre perfura o corpo humano. A foto do menino Aylan Kurdi, aquela de um homem carregando o corpo de um menino pequeno junto ao mar da Grécia, chocou milhares. A fotógrafa, muito provavelmente, jamais esquecerá a cena de horror. Assim funciona! O "retratista" jamais se livra de sua caminhada, alguns até enlouquecem, como as histórias que já ouvimos falar.
Pessoas morrem e morreram ao mar por toda trajetória da humanidade, mas agora é a vez de um menino ser o alto das atenções. E não há história mais sensacionalista do que um menino morto, integrante de uma família, onde apenas o pai sobreviveu... um pai que agora, atormentado será por seus pesadelos materializados. Se eles fugiam de um lugar como aquele pra viver, talvez no céu estejam vivendo momentos mais seguros. Não há conforto para quem vive uma história assim e permanece vivo. Esta é aquela pena injusta, imposta pela vida! Vc não escolhe onde nasceu, mas é condenado pela eternidade de uma vida até a velhice, sem aquele menino que deveria ser adorável. A sensação de fracasso da paternidade deve ser o que há de pior nesta vida das culpas. O mar não escolhe, não pensa nas consequências geradas pelo homem... o mar de calmaria é um perigo como o mar de tormenta e, nele nada não adaptado pela evolução consegue salvar-se, menos ainda uma família que ambicionava um lugar melhor para viver. Agora, fomos todos sentenciados a viver com estas imagens... um menino morto sendo retirado do mar. Todos nós esquecemos que o mar é um colecionador de almas e quando mergulhamos nele para qualquer motivo, nos deparamos com um tipo de deus. Em minha descrença sobre a existência de deus, entendo que os sinais estão aí para corrigirmos os maus caminhos da "civilização". A fotografia foi um sucesso do fracasso social...