Um corte no vento

            
            Nas reflexões... e nelas me deparei com uma lembrança. E coisa boa uma lembrança... e se você realmente saboreou o momento, tuas lembranças podem ter sensações de calor ou frio, toque do vento, brilho do mar, das gotas, reflexo nos olhos de alguém... e foi aí que percebi que a gente envelhece aos poucos, de acordo com a vivência. É algo justo... merecido! Você viveu, aproveitou... não viveu, desperdiçou! Eu me vejo sempre na estrada com aquele olhar do videogame, com a perspectiva de um terceiro, um espectador que esta no comando, ou pensa que esta na condução de uma vida. Mero engano... meu, teu, de todos que assim pensam! A gente não manda em nada... nós tomamos decisões, mas elas estão acometidas do acaso. As coisas vão se montando, como num quebra cabeças de peças em movimento. Não dá pra saber formato e andamento de algo que se transforma em toda trajetória, durante todo tempo. Isto é a vida... você vai se casar, se separar, vai cair de bicicleta, vai conhecer alguém que surpreende você, vai ver animais realizando "tarefas" que nunca imaginou. O vento vai soprar sobre as coisas, como se estivesse vivo... vai te fazer pensar que alguém acima de você decide por coisas que aparentemente são incontroláveis. E eu não estou falando de um ser supremo... eu não acredito em um Deus como as pessoas geralmente se posicionam. Eu vejo de uma forma que não ousaria descrever... eu não espero ser valorizado ou punido por alguma paternidade invisível. Eu faço as coisas da forma certa, sob minha perspectiva, pq acredito que isto me faz bem. Eu me desloco por esta superfície que chamamos de Terra e tento observar tudo, fotografar tudo que me causa curiosidade, até que tudo seja conhecido e banal, para então não haver mais nada novo. Sabendo que isto é impossível, mesmo que eu pudesse viver cem anos para tal, e sei que devo chegar aos 80 se tudo der certo, vou ver um bocado de coisas... e no fim isto vai representar, talvez, a centésima fração da existência ao meu redor. Tem gente que tem coragem de olhar pra rua e dizer que não acontece nada... eu fui fazer uma pauta, hoje, quando eu voltei para carro tinha um aracnídeo com mais de 10 cm  no meu caminho. Era uma Caranguejeira adulta jovem. Eu já caminhei pelas ruas até meus pés doerem... caminhei até onde as pessoas não acreditaram. Eu tive sempre muita fome de ver... e eu vi muita coisa. E eu não sei parar... e não vou. E é por isto que sei que sou um fotógrafo com a habilidade para contar o cotidiano... Eu sou um fotojornalista pq eu senti o gosto do vento, com um corte que fiz por ali estar... meu corpo cortou o vento, como um pássaro desenha o ar. O que não parece ali estar, pode ser provado através de uma outra existência. De outra forma, pássaro não voaria, e eu não sentiria o gosto do vento.