Companheira Pitangueira


        Há muitos anos escrevi isto... tal de "Companheira Pitangueira" e alguns gostaram, outros riram, outros apenas se surpreenderam. Acho que a vida é surpreender e ser surpreendido... eu disse alguma vezes que era difícil de ser surpreendido. Tenho vivido a espera de ser surpreendido... nunca me achei inteligente, mas sempre consegui atingir alguma satisfação pessoal por gerar conclusões próprias. Acho que poucas pessoas gostam ou se importam se as pessoas escrevem ou falam... Com aquela timidez que me fazia sentir em frente a uma multidão estando na presença de mais de 4 pessoas, jamais soube me expressar sendo eu mesmo. Ao tentar falar, parece que há duas consciências dentro de mim... uma tentando dizer o que preciso, a outra dizendo que não vou conseguir. Por fim, muitas vezes me sentindo e talvez até passando por tolo. Fato que encontrei na escrita, minha proteção... digo o que quero, no tempo que consigo, sem estar sendo cobrado por alguém. Há coisas que jamais superaremos... por mais que pensemos que podemos! Minha timidez jamais me deixará... é meu ônus, me trouxe o bônus da sensibilidade de observar a vida e suas senoídes. Superei, e não, a perda de pessoas próximas, quer fosse por afastamento inevitável ou dissincronia. A verdade é que acreditamos naquilo que tocamos ou sentimos, não naquilo que contaram... e foi aí, mais uma vez, que eu percebi que os adjetivos da minha vida pessoal se confundiam com os da minha vida profissional. Tudo que somos, seremos com a família, na carreira, nas atividades não profissionais. Tudo o que passamos, passará... nada é permanência, inclusive, pq somos passageiros. E dentro desta passagem, mudaremos, seremos algo novo a cada conjunto de pequenos ciclos. Os resistentes, da mudança externa ou interna, nadam insistentemente contra todas as correntes que aparecem pela frente. Até que, cansam... e então, se convencem de mudar por aceitação. Os que mudam com facilidade não carregam consigo a bagagem da resistência, que por um lado é bom, por outro nem tanto. Uma balança indica pesos e decisões, mas da vida, exata é somente a certeza de chegar e partir. Não haverá duas oportunidades iguais, tampouco duas vidas iguais... viva a sua maneira, com os seus moldes e tenha a grandeza de permitir que o próximo pense da mesma forma. 

Companheira Pitangueira

         Da janela do quarto, esperando meu amor voltar, vejo o começo dos primeiros pingos... um pé de vento e um céu cinzento anunciou a chuva. Incorpada pelo frio que sinto, intimida-me, e um cobertor é preciso tirar do armário. A chuva combinada com a angústia que sinto pela falta do amor, intensifica o frio. Através de um pequena fresta na janela sinto o aroma da terra molhada... perfume único e evidente da primeira chuva, quase um poema. Um galho da pitangueirinha cruza a frente da minha janela, e nele pousou um pássaro arrepiado pelo vento. Senti pena, supondo algum sofrimento... um solavanco maior, expulsa-o do galho, o levando a outros destinos determinados pelo tempo. Em frente a janela pensei em tantas coisas, na ausência do meu amor e na solidão, nos episódios felizes e infelizes da vida, no esforço que fazemos para chegar a velhice. A chuva aumentou, e meu amor nem ligou... desperdiçando meu sentimento, como água que escorre pelo ralo. Cansado da espera, embalado pelo ruído da chuva e acomodado no calor do cobertor, adormeci... um soninho tranquilizou-me das angustias e da espera. Quando acordei, a chuva havia cessado e fazia sol. Do vento e céu cinzento, a calmaria pós chuva de verão... sol intenso e céu azul. Da chuva, apenas sinais... gotículas sobre as pequeninas folhas da pitangueirinha em frente a minha janela.

                                                                                                                                       Roberto Furtado