Carregado pelo vento...

Foto: Roberto Furtado
         Quando voltei do Rio de Janeiro, senti o peso de grandes mudanças dentro de mim... Fui fazer um estágio de preparação para jornalistas em zona de conflito. E não tenho certeza de que estou preparado para viver qualquer situação tensa e hostil, mas sei que vou sobreviver por algum tempo mais ou até mesmo me sentir mais tranquilo para enfrentar o pior. Foi o treinamento... foram as palavras dos militares instrutores, dos amigos que fiz lá, a tensão de simulações, o ardor do gás lacrimogênio, a mudança de hábito, a dor do afastamento, o medo do futuro e outras situações que me transformaram em algo diferente. Eu não tenho o mesmo sorriso há algum tempo, me dizem isto! Contudo, acho que ainda sou o mesmo "molenga", coração mole! Tenho corpo forte para o porte, tenho mente de quem já fez um audax, de quem passou frio e fome, talvez medo da morte, e de uma dor que não esqueço. Eu senti muita dor certa vez... e acho que o fato de ter me machucado e ter feito mais 130 km pedalando, mesmo estando com o ombro arrebentado, me fez mais forte num treinamento da vida real. As enxaquecas que são coisa do passado, também tiveram cota de importância... aliás, me pergunto pq nunca mais tive! Seja como for, todos estes experimentos, verdadeiros ou simulações, tornam-se grandes oportunidades para nos transformarmos em pessoas mais resistentes e aptas. Eu me sinto, hoje, carregado pelo vento... eu não me abalo por qualquer coisa. Eu só tenho uma fraqueza... meu coração mole! Eu tenho o coração mole... sei que posso apanhar até contar alguma coisa, pq a tortura seria apenas uma questão de tempo. A tortura é convincente... eu aprendi isto no curso. O tempo que vai levar pra vc ceder é uma incógnita, mas ele é o fato, vc vai falar, vai ceder! Fora do estágio, longe do Rio de Janeiro, fui submetido a um teste de vida. Eu fui submetido a uma condição de tortura... eu resisti, e isto não adiantou. Eu segui resistindo, mas chegou o momento em que falei o que não queria falar. A pressão psicológica é das piores torturas que existe... e você fala, é questão de tempo. Não interessa se foram 8 meses, não interessa se foi no primeiro dia... vc fracassa, não importando o tempo que levou pra isto. Acabei aprendendo que a saída é negociar... O que vc quer? O que posso oferecer em troca do cessar fogo? Isto faz parte do meu passado, pois já estou livre disto. A gente não esquece, a gente se ergue, se arma pra vida, e se volta contra as ondas do mar. Eu sou um prancheiro... eu entrei em mares revoltos puxando linha de pesca, contra corrente, contra as ondas, contra o frio, com medo, com receio de não voltar. Há duas incessantes questões durante as dificuldades... uma mentindo pra vc que é possível, outra mentindo pra vc que não consegue. Lidar com as duas é uma questão de estar preparado... e a única questão que é garantida para quem se submete a vida é que vc vai ir e estar cheio de incertezas. Vc pode, vc consegue e deve tentar, mas o medo existe. Como diz a música... "A dúvida é o preço da pureza, e é inútil ter certeza!" (Engenheiros do Havaí). Eu me sinto tranquilo, qualquer que seja o fato... me sinto carregado pelo vento, sem saber onde vou parar, mas sei que pra deixar uma marca no mundo vai ser preciso muito mais do que simplesmente clicar. Vai ser preciso enfrentar todos os demônios da estrada, e talvez nenhum deles seja meu mesmo, mas ainda assim terei que superar todas as adversidades. E ainda assim vai valer a pena, independente do resultado!