Normal e perspectiva

Massa Crítica e suas perspectivas, mesma visão por outra direção. Foto: Roberto Furtado
               Vou tomar o cuidado para escrever este assunto... sei que as interpretações de um conjunto de palavras que construirão uma afirmativa, podem divergir do que inicialmente planejei. Claro que não cabe a mim manipular, em hipótese alguma, o entendimento que cada um fará disto ou de outras questões que se projetam em nossas reflexões. 
            Ontem a noite eu sai para dançar com alguns amigos... meus colegas de dança de salão, pessoas divertidas e queridas. E foi na oportunidade que reforcei meus pensamentos sobre as habilidades de cada um, dentro daquilo que talvez as pessoas classifiquem como normal, que inclui e exclui indivíduos dentro de um grupo. Eu observava meus amigos e outras pessoas no sensacional gesto de se expressar com o corpo no ritmo da música... aliás, produzir sonoridade e ofertar um ritmo com isto, depois alguém interpretar e se movimentar para objetivar este acompanhamento, me parece uma ação tão elaborada quanto qualquer linguagem de computador... as pessoas dançavam e pareciam perfeitamente encaixadas em algo nada tátil, meio incompreensível aos meus olhos. Até tentei dançar, mas ontem estava cansado e pareceu mais difícil... paciência das meninas minhas colegas, mais uma vez, em tentar me ajudar. Notável qualidade delas... como não gostar de pessoas assim? Há, no intuito social, uma necessidade de compartilhar, dividir, coexistir! Ninguém quer guardar as alegrias para si mesmo, tampouco não receber tais alegrias de ninguém. As manifestações de grupo, tais como aglomerações com finalidade qualquer, promovem esta coexistência, necessária. Li certa vez um livro que falava sobre sermos um "ser de encontro", onde nossa presença e ações são ou precisam ser divididas. Temos tal necessidade... e acho que daí vem a definição de amizade, pois é o laço afetivo que resulta da vida compartilhada. 
As habilidades dentro destes grupos... eu observo. Extremamente variáveis são os comportamentos, habilidades, expressões e formas como se manifesta este corpo comandado por uma consciência. Eu não tenho religião definida, mas obviamente tenho minhas crenças... estamos sim no caminho uns dos outros, por um motivo e de alguma forma somos submetidos a experiências que podem nos levar a evolução. Até faz sentido se a gente tentar ser lógico... não?
Entrei nesta pela dança, como entrei em tantas atividades ao longo da minha vida, com o propósito de mudar minhas perspectivas. Talvez, ir contra a maré, já que nunca notara uma habilidade mínima para isto. Vejo a dança como inevitável necessidade do corpo e da mente, mesmo que não exista uma habilidade esperada para acompanhar o restante. Normalidade... hoje, não me preocupa o fato de não conseguir acompanhar alguém em uma atividade. Eu descobri, ao cursar engenharia, que somos muito diferentes uns dos outros... em algumas propostas nos saímos bem, em outras nem um mínimo alcançamos, outras vezes estaremos em um patamar do coletivo, mas pode ainda haver poucas habilidades frente a um universo de propostas. Isto é notável, bendita diversidade que nos faz, em grupo, sermos tão completos!
            Ao que parece, dançar ser tão natural para uns, para outros é tão difícil... e agora entendo, mais uma vez, porquê as pessoas se surpreendem quando escrevo ou fotografo. Para elas parece tão difícil... algo que para mim é tão trivial. Uso linguagens tão modestas, evito palavras complexas, evito estruturas complexas... tento fazer tudo parecer tão banal. Na fotografia, faço o mesmo... retrato o óbvio, com perspectivas ou ângulo para que todos entendam o máximo com uma única foto. A dedicação ao fotojornalismo me colocou em uma patamar de simplicidade onde tudo insiste ser tão complexo. Nós complicamos tudo! Normal... sim... somos normais, com ou sem grandes habilidades, nos fundimos em uma massa que se expressa de muitas maneiras e transformamos pensamentos em alegria, seja ilustrativa, corporal, narrativa... há uma gama de opções que nos transporta ao infinito. Não tenha medo de nada... é extremamente prazeroso desafiar-se!