Maturidade de um fotojornalista


       Tenho pensando muito em algumas situações da insegurança mundial... Aqui no Brasil, estamos vivendo um caos da segurança por problemas que não consigo definir onde começam e terminam... lá fora, os problemas são tão antigos e estão nas mãos de irredutíveis. Então assim, rapidamente eu tento explicar algo sem explicar nada, porquê é isto que me parece todo este monte de conflitos e desequilíbrios da sociedade, seja local ou mundial. Estamos vivendo um caos pq não conseguimos coexistir...
E se por um lado eu penso nisto, por outro vejo tanta gente querendo resolver as coisas, dispostas, arriscando-se para tentar endireitar o que parece impossível. Ano passado, tive oportunidade de conviver com alguns militares, tenho certeza que especiais como seres humanos, e pude observar que o foco é a paz. Se aprende, se treina, se fala em armas, guerras, problemas... tudo com intenção de dissolver o que há de ruim, trazer quem sabe, a volta da estabilidade e paz. Estou prestes a fazer 41 anos... me vejo jovem ainda, mas é nítida a minha forma de encarar o mundo. Eu não sou tão sonhador como antes no que diz respeito a esperança de paz. Eu cresci ouvindo histórias na televisão... meus pais falando no assunto que até crianças morriam no Irã. Sabe lá quando era aquilo... imagino que por volta de 1982... e portanto eu tinha seis anos de idade, mas me lembro. Quando era criança eu tinha certeza de que seria bombeiro... acho que eu pensava que era bonito ajudar as pessoas, usar roupa vermelha, caminhão com sirene. Vai entender cabeça de criança, que cria e se ilude com as faces belas de uma pauta. Cedo fiz judô... e cedo abandonei aquilo, não devo ter praticado mais do que 6 anos do esporte. Era claro para mim, que a menor violência, significava receio, e por isto, anseio de afastamento. Eu jamais suportei a ideia de servir... nem sei de onde tirei isto, e me arrependo amargamente. Eu nem sabia o que seria... ou o que faria da minha vida. Eu só pensava em ser alguma coisa legal... mas desisti bem cedo da ideia de ser veterinário, cursei algumas disciplinas, depois cursei bastante engenharia mecânica, a qual abandonei também posteriormente. Por muito tempo segui em uma vazio vocacional, trabalhando como representante e vendedor de bombas dágua, de tipos variados, aplicações com derivações do entretenimento. Eu era bom naquilo... o suficiente, mas pense em um vazio vocacional. E então por algum motivo, entrei em uma estrada da fotografia que me levou ao jornalismo. E assim nasceu em mim um fotojornalista... Aprendi o ofício, mas muito mais que isto, o lance bombava no meu sangue. Inquietude... "ser de uma alma inquieta", sempre disse minha mãe, se referindo a mim. Quando dava confusão era nesta direção que eu corria... quer fosse incêndio, manifestação, pancadaria, acidentes, lá eu sentia que deveria estar. Era, ou melhor, é, maior que eu... embora esteja, agora, calmo, depois de fazer o treinamento do CCOPAB, no Rio de Janeiro. Experimentar a situação de simulação dos riscos, combiná-los aos infortúnio da mão armada nas ruas da cidade natal, assistir documentários e filmes sobre o que se busca, torna-nos, covardes. O que vale mais? Arriscar-se ou deixar o sangue amornar? Antes, preferia que ele fervesse... agora, talvez seguindo na direção da maturidade, pareço abrir mão, muito embora tenha certeza de que estoure o que for na minha frente e, não perderei a foto. Maturidade profissional não combina com maturidade pessoal... uma vai te colocar no caminho da outra, distanciando-o de uma delas. Prefiro pensar que aqui, embaixo de um semblante paciencioso, mora sim um fotojornalista de zona de conflito. Não sei se vou, ou se quero ir adiante, um dia com isto, mas há sim... sinto-me cansado de ver que fatos e fotos não mudam as realidades, e afinal, não seria este o motivo existencial do fotojornalismo? Se não for, o que é motivo? Bem... acho que há muitos lugares para um fotojornalista que perdeu a esperança de que o trabalho motivasse as mudanças, mas se isto é o melhor como caminho, não sei. Prefiro pensar que me capacitei para algo que pode me encerrar a trajetória, e que no meu egoísmo poderia apenas curtir o restante da minha vida combinando vida pessoal e vida profissional serena. Eu não quero me precipitar, mas talvez, eu tenha chegado no momento e acabei de me limitar como profissional. Não quero fotografar pessoas inanimadas, menos ainda dor. E o que me faz egoísta, e o que me faz presente na veracidade? Posso mudar alguma coisa com minha existência?
Estas foram perguntas que saíram da minha cabeça após o treinamento e mudança de vida pessoal... Mesmo que pareça perdido, garanto que estou muito mais encontrando dentro de mim. Eu devo muito aos militares, meus instrutores, que se tornaram meus amigos, também aos meus colegas do jornalismo. E só o que penso é que gostaria de ter certeza que todos nós estamos seguros, o que é uma ilusão, num mundo como se apresenta a Terra em 2017. Acho que não sou daqui...