Despedida


               Estava caminhando na rua, sozinho, quando percebi o que se transformava em mim... Chuviscava na tarde fria de Porto Alegre e, eu, não entendia o que percebia aos poucos. Caminhava e a cada passo, evitava as poças deixadas pela chuva, como se fizesse alguma diferença manter secos meus pensamentos. Tudo não passa de ilusão... um macete, ilustrativo, composição de frases por meio de palavras escolhidas. Eu não tinha nem dez anos quando comecei a pensar na estrada... e era um menino quando entendi o vento. O vento e a estrada se relacionam e agem em conjunto. Querem te afastar, querem te aproximar... ao prazer do universo, decide por ti algo ou alguém que tu jamais vai compreender. E eu caminhava pela rua quando uma brisa se chocou contra o meu rosto querendo me ganhar a atenção... e parei de caminhar pra saber a velocidade que vinha o vento. Uma brisa, fria, úmida, cheia de intenções... com a brisa vinham pequenas gotas, um chuvisco fino. A cada micro gota, uma pequena atenção promovida pela sensação intermitente de choque frio... existe forma mais expressiva de ganhar tua atenção? Eu não tinha como evitar... tive minha atenção direcionada, com autoridade do clima. Me perguntei um porque de disponibilizar esta atenção... e vi, com relevo, imagens e momentos meus com este alguém. Foi quando percebi que era uma estrada, tal última cena. Caminhava em uma direção e ao meu lado ia alguém... e conversas iam e surgiam novamente, até que veio o silêncio. O silêncio chamou minha atenção... então olhei pro lado e não estava mais lá. Estava sozinho... parei, conferi. E quando olhei para trás, vi o alguém sentado em uma pedra no canto da estrada. Havia desistido... talvez estivesse pensando em outra direção, uma nova intuição. Como saber... se muitas vezes nem mesmo os próprios sabem, imagine um terceiro. Parado, vi que o alguém não se deslocava e não iria tão cedo. Olhei para os meus pés e entendi que meu caminho era inevitável. Eu não havia chegado aonde deveria... nem aquele alguém. Destinos diferentes, alteração de rota... o acaso cria! Te traz, te leva, gerencia... Gastei alguns segundos na reflexão, olhando para trás e entendi que era realmente meu destino, caminhar por ali, agora, sozinho, talvez a espera de outra ou outras consciências. Ali... ficava um momento, de partida, de renovação, uma estrada autoral. Definir o que era aquele momento... para mim, era, nada mais e nada menos que uma despedida. Um reconhece ao outro, com ou pelo tempo que for necessário o convívio. Despedida é um momento... pode ser 20-60 anos, pode ser duas semanas. Sempre surge... mesmo quando parece incrível relação de amizade. Me despedi da outra consciência, sem qualquer pretensão deixei os olhos abertos... e tudo parece um ciclo de início e fim. O comprimento de onda destes ciclos? Acho que são variáveis... talvez seja único, talvez sejam dois ou três. A dúvida impera... é o preço da pureza, e mais uma vez, me parece inútil ter certeza. "E se amanhã não for nada disso... caberá só a mim esquecer!"