Sorte jornalista...

Display da Canon 5D, click com um Samsung J7. Foto: Roberto Furtado
          Fiquei aqui pensando como poderia começar uma abordagem sem parecer que sou motivado apenas por fé... porque fé, tenho, mas não como as pessoas imaginam. E sei que existe um limiar entre fé e ciência, mas geralmente as inexplicáveis acabam caindo no domínio da crença, sorte ou outra situação que retire o mérito da existência. Não posso explicar o que vou contar mais uma vez, mas preciso que você simplesmente acredite na minha história. Acredito que uma pessoa, uma vez que tenha entrado num estado de positividade e foco, possa controlar algumas situações que de alguma forma são incontroláveis. Por exemplo... canalizar positivamente os acontecimentos. Aí vem toda explicação que a humanidade procura o tempo todo, geralmente na atribuição divina, mítica, etc. Não terei como discutir sobre isto, e nem quero, pois meu post seria extenso demais e ficaria subutilizado para a verdadeira necessidade, mas precisava adentrar nesta questão para promover esta perspectiva em quem fosse ler esta composição. Já fui um fotojornalista bem mais ativo das ruas... aquele que vai até as ocorrências, fotografa de tudo o que acontece num dia e que pode ser publicado nos veículos informativos. Contudo, passei por algumas reflexões que me fizeram mudar um pouco sobre este trabalho... e o próprio reconhecimento financeiro me tirou um pouco do foco do front. Os próximos a mim sabem que esta é uma paixão estonteante... eu fico quase em transe quando o assunto é este, tal de fotojornalismo, do batente das ruas, dos fatos corriqueiros. Já ia fazer quase um ano... que eu tenho deixado de lado o corriqueiro cotidiano para atender apenas uma agenda, com pautas pré estabelecidas. E faço outras coisas de rua, tal como visitar clientes e viver tarefas pessoais. Vez ou outra, empunho a câmera pensando: "pode acontecer algo por onde vou passar e, preciso estar com a câmera!" E foi pensando assim que bati o arranque do carro... e na última hora resolvi voltar a minha mesa de trabalho e pegar a câmera e configurar para isto... Lá fui eu, com outro objetivo em Canoas... Na estrada, enquanto eu dirigia, pairava a canon 5D mark III no assento do carona... tal e qual fazia no passado. Finalizei meu compromisso em Canoas e me preparava pra voltar a POA... liguei o Waze e ele sugeria um caminho, mas eu pensei na hora: "Não gosto de ir por aí... vou por onde prefiro e ele que trate de achar outra rota!" Comecei a conduzir pelo novo caminho quando ouvi uma sirene... longe, mas indicando som de viatura da polícia militar. Logo vi que tinha alguma treta acontecendo no caminho que minha intuição havia sugerido... Algumas quadras adiante e dei de cara com um amontoado de pessoas, curiosos em torno de um fato. Havia dois focos... distantes por uma quadra. Assaltantes perseguidos pela polícia, em confronto, foram baleados e capturados por um esquema da Brigada Militar que reagiu a altura da situação. Um parecia estar muito feriado, inconsciente, o outro estava apenas com um tiro em uma das pernas. Cheguei com cautela, antes de clicar, me identifiquei e perguntei aos policiais se podiam me contar o ocorrido. Fui mal recebido pelos policiais no primeiro ponto, onde o criminoso estava com o tiro na perna. Havia uma tensão forte ali... e o policial militar começou a discutir comigo. Em tom de voz muito diferente disse pra ele: "me identifiquei, sabes que sou jornalista, este é meu direito de imprensa..." Por muito pouco ele não me prendeu, mas fiz os cliques e saí do local para ir ao outro, onde havia o assaltante deitado e inconsciente. Lá, fiz o mesmo... me identifiquei e pedi ao policial para ficar de costas para mim por uma fração de tempo, pois eu tento preservar a identidade dos mesmos. Porém, disse que não havia problema... que podia fotografar, pois dezenas já haviam feito com o celular. Este último, foi muito educado, talvez mais experiente, embora tenso. Depois de toda situação, fui para a base para enviar o material... encaminhado para agência da Folha. Fiquei em casa e depois na rua, outra vez, pensando na questão do trabalho. Não sobre isto de executar uma tarefa, em uma situação tensa e crítica da segurança. Eu não tenho medo, tampouco receio... era uma situação já controlada pela polícia, estável, para não dizer segura. Fiquei pensando no fato, de ter saído de casa, com a decisão de portar a câmera mesmo estando em outra tarefa. Ter mudado a decisão de última hora para levar a câmera, depois de ter mudado a rota de retorno, me deparar com uma situação na hora certa, já devidamente controlada que pudesse me ofertar o trabalho de forma tão fácil e precisa, isto foi realmente uma obra de sorte jornalista. E isto aconteceu inúmeras vezes comigo... agora, ou antes, e presencio os fatos. Imagino estar sempre aonde preciso, e quase sempre estou na hora certa. Eu não me lembro de ter chegado atrasado num acontecimento... pauta que acontece durante período que estou com a faca nos dentes, é pauta feita! Parece obra da conspiração do universo... não? Prefiro ficar com minhas aspirações de sorte sobre isto, mas que parece, parece!