Impublicável...

Monterey Bay, 2014.
              Escrevi... digitei e desenvolvi, como sempre, sem traçar um roteiro, sem planejar. Apenas escrevi... fui indo, falando com as mãos, desenhando com palavras. Lembrei de toda minha jornada até aqui. Senti a sola dos pés tocarem integralmente o piso... sem esperar o calor ou frio, mas sou e posso ser dramático. No meu entendimento, dotado de sensibilidade que se parece com o pulmão humano, capaz de se expandir ou contrair ao sabor de cumprir seu papel... enche-se de ar, expulsa-o para renovar, absorve o que precisa, expele o que não quer. Em certo momento, me bloqueia o ciclo... devo esperar, devo guardar. Eu lembrei de algumas vezes em que me sentei perto da água, do mar, que traz e leva, também, dos meus sentimentos que circulam pela terra e pelo ar. Eu não impeço mais nada, nem meu ar, nem meus pensamentos, nem nada... eu sigo. Eu entro no mar, mas antes, olho bem... com calma, respiro o momento. Entro no momento... coloco o neoprene, meu short ou long, e sinto a fantasia de borracha fazer parte de mim. Sentado no bodyboard que paira sobre a areia, dou a última olhada para o mar... vejo onde estão as correntes. Me integrei como poucos, como diz minha mãe: "Tu fazes isto desde menino, gosta tanto, que se familiarizou com o funcionamento!"
E é exatamente assim que me sinto... eu olho mais uma vez, pés de pato na mão direita. sinto a água avançando pela profundidade. Sinto-me em casa... calço, sempre, primeiro o esquerdo, depois o pé de pato direito e, neste momento me sinto um herói, imponente frente ao grande mar. Coloco água do mar na boca, ponho pra fora... ao que parece, pra ter certeza de onde estou. Confirmo... é o mar! Mergulho molhando o topo do cabelo e entro um pouco mais pra perder o fundo. De costas bato os pés... enfrento as ondas pequenas, grandes e, vou entrando até encontrar a arrebentação que me interessa. Olho a minha volta e sinto o volume de água que me desafia. E sinto, toda vez, a energia do mar e a grandeza de me sentir pequeno frente ao universo que é o oceano. Nada me separa daquele momento... eu me sinto tão bem. Aprendi a dominar o que quase todos temem... eu que quase fui vítima umas duas ou três vezes, superei, me encantei. Gerei uma confiança e relação com a água salgada, seja calma, seja revolta... mas é das calmas que tenho medo, e mais se não forem salgadas. Se não for gato pra ter mais vidas, então certo que o tempo esta definido nas asas daquela borboleta com quem tive um "momento", tal de 88... que não esqueço. E eu queria falar mais sobre isto, mas agora, aos poucos, torno a refletir sobre vulnerabilidade. Acho que estou perto de uma mudança de direção, espero apenas não me isolar muito. Nem dos meus textos, nem das pessoas... mas o tempo, esgotou-se. O medo é de ficar vulnerável, já que exposição é detalhamento de como funciona tudo aqui dentro. Acho que já me ajudei muito... acho que já ajudei muitas pessoas. Seria um momento de despedida? Não foi meu toca discos que se matou... nem meu tempo terminou, mas virei impublicável. E fiquei tão certo de algumas reações e tão confuso de como devo agir... Eu sei o que me tornei... não preciso mais dizer o que sou, nem perder o tempo de ninguém. Eu achei que sabia muitas coisas até saber que nada sei... mas ter certeza que não sei é a maior certeza que preciso ter. Espero que este blog não morra... mas ele vai mudar. Como, quando e porquê... não sei! Ainda assim, sei o que sou... um curioso do mundo, que não mais teme a água salgada, que sabe, que o destino e o mar dividem as mesmas dúvidas. E eu poderia falar mais coisas sobre mim... quanto mais falo de mim, mais duvidam do que sou, mas não preciso me afirmar. Guardarei pra mim... acho que agora, o que restou, vou chamar de impublicável.