Ela veio... ela foi!

Ela me ganhou quando voava, mas garantiu quando fez um acordo comigo, 2017. 
        Manhã de trabalho... acordei cedo, peguei o carro, trabalhei onde deveria, terminou depois do combinado, mas não tem problema, a gente acaba entendendo que sempre existe um motivo. E para quem vê motivo, acredita, se depara com a montagem destes frames que descrevem a vida, há uma serenidade. No carro, pensava em coisas que deveria fazer para terminar a semana em dia. Na minha rua... olhei uma pequena árvore radiante com flores coloridas de tom cor-de-rosa, em torno dela, uma borboleta preta. Voava rápido... mais rápido que a maioria dos olhos humanos pudessem suportar para entender forma e cor! Meus olhos, velhos, ainda são muito bons, para mim era evidente a beleza, ainda que tivesse visto apenas voando. Parei o carro... saquei a segunda câmera e montei uma objetiva (lente), conferi configuração e com a "paciência" que se instalou em mim para tudo que não controlo, apreciei os trajetos agitados da pequena voadora. Pousava rapidamente, muito rapidamente, mas nunca parou de bater as asas! Eu logo vi... já sabia como ela era. Pequena, inquieta, cheia de certezas... Dominava o destino como se fosse possível. Não que esteja errada, talvez eu esteja... mas ninguém pode viver em tal ritmo como se o mundo fosse acabar amanhã. Talvez, talvez sim, talvez não, eu, ainda não sei! Nada sei... na medida em que descubro o mundo, menos sei, mais entendo que não saber é sabedoria. Voava em torno de uma pequena árvore, inquieta, radiante, preta, sugando a luz, destacando suas manchas rosas como se fossem pequenas lâmpadas. Vai entender como outra da mesma espécie entende o desaparecer e ressurgir das manchas, como pode parecer isto quando abrem e fecham asas. Esquecemos destas pequenas mágicas... eu vi! Em certo momento, parei de tentar clicar, quase que num pedido de conversa. Ela concordou... parou se eu abaixasse a câmera. Alguns segundos e fiquei hipnotizado... tive tantas perguntas naquele momento. Nenhuma me foi respondida, evidentemente! É como se ela não gostasse de perguntas... despediu-se circulando em torno da pequena árvore fazendo-a de eixo, em torno disto estava eu... que pasmo, a vi subindo, em círculos imperfeitos, abrindo, como se fosse um espiral. Até que a perdi de vista... percebi que foi um momento. Ela me deu um presente, mesmo que insuficiente, uma proposta viável para dar certezas aos meus pensamentos. Acalma, qualquer ansiedade se dissipou com o vento... na memória, fragmentos bem visíveis de quem ela era. O destino me aproximou a ela, com o término posterior do trabalho. Tudo é como deve ser... no tempo, no vento, na condição existencial que merece e precisa. Eu... bom, tenho mais uma imagem de borboleta, um dos seres vivos que mais gosto, mas é mais que isto. Tive uma oportunidade... de ter, perder, crescer. Aqui, não mais a verei, vida curta teria a pequenina... eu, a minha, palpito nos 88 anos. Errado ou certo, já atinge o impossível para as borboletas, eu, tenho dádiva de coexistir observando-as, ano a ano. Ela veio até mim... ela foi! Foi para outros encantos, mas eu fiquei com um pedacinho dela, uma lembrança, da mesma forma, ela de mim! Ela veio por algum motivo, talvez... Sobre mim, parece claro, sou um viajante, me impressiono com facilidade e pelos motivos que me interessam. Eu, nasci sóbrio, mas vivo embriagado em minhas fantasias. Se é um problema, sou um problemático, gratidão!