As águas... sem medo!


            Quando eu tinha 12 ou 13 anos, fiz escola de vela... foi lá no Veleiros do Sul. Do professor, o rosto ou nome, nem lembro mais... e até acho estranho não lembrar da fisionomia, mas passam tantas pessoas ao longo da nossa estrada que não é assim tão estranho não lembrarmos de nomes ou rostos. Eu lembro bem que era o mais novo da turma... era uma turminha de jovens e de adultos. Alguns mais velhos colocados com os piás, de três a três por veleiro. Em uma das aulas práticas, o objetivo era virar o veleiro e desvirar... sair de uma situação, simulada, assistida, para saber como poderia ser a experiência complicada do velejo. Viramos e desviramos o veleiro umas três vezes... Não é nada fácil depois que ele tende colocar o mastro apontado para o fundo. Pareceu quase impossível... é como brigar em cima de algo que não consegues aplicar tuas forças. Mesmo assim, num jogo de equipe, conseguimos... eu sempre fui um moleque forte, tenho certeza de que não fui peso morto, tampouco meio eficiente. Acho que fiz a diferença... e depois disto, vivi experiências próprias na água. Algumas pensei que seriam a última, mas isto é uma coisa que a gente aprende também... nunca é a última até que ela realmente te vença. Enquanto estiver consciente e capaz de recobrar o domínio, haverá uma grande chance de você reverter as coisas. Eu já escrevi sobre uma situação onde pensei ser jogado para cima de um naufrágio depois de uma grande série de ondas. Por sorte, não fiquei preso nos ferros submersos, mas foi a maturidade de manter a calma que me manteve esperto e com chances de solucionar o problema. Em outra ocasião passei por cima de uma rede... ela ficou esticada e a corda mestra que sustentava a rede passou raspando no meu bodyboard, mas isto porque eu impulsionei a prancha para cima no momento exato. Aquela foi a pior das situações que vivi... se tivesse entrado na malha da rede, teria ficado lá mesmo. Não conheço ninguém que se malhou em redes de praia e que tenha sobrevivido. Mesmo quem carrega uma boa faca, não teria tempo suficiente para se desprender. Nos assaltos que sofri, corri riscos como qualquer vítima, mas foi a calma que me permitiu seguir adiante. Quando fiz o curso no Rio de Janeiro, para jornalistas em zona de conflito, descobri que já sabia algumas coisas por experiência própria. Maturidade é o fato de conhecer-se, saber olhar para algo, examinar e tomar decisões. As decisões são sempre com o objetivo de superar... você olha para o perigo, avalia, enfrenta ou foge, ambas podem ser a decisão correta de acordo com a situação oferecida no momento. Prefiro sempre manter a calma... E sobre calma, sempre lembro do meu estado de espírito sobre a prancha. No mar... metros atrás da linha de arrebentação encontro meu ferrolho, meu momento de paz. Tomo minhas decisões, independente do tamanho do mar. Quando eu calço os pés de pato me sinto protegido, capaz de decidir, de usar a força para resolver tudo. Sejam águas cristalinas ou turvas, onde pequenas ou grandes... eu não tenho medo. Aprendi a dominar uma situação, em 29 anos de bodyboard. Confio e respeito em tudo aquilo que pode me vencer... mas saber exatamente onde esta, te permite viver sem medo! Os meninos deviam ouvir mais os homens... e os homens deveriam prestar mais atenção nos meninos. Um é o outro amanhã, mas o ontem ensina como presente deve se apresentar. Sobre as águas... vivo, sem medo!