Nosso limite está muito além do que imaginamos


Foto: Roberto Furtado / Sociedade Audax de Ciclismo
     Quando comecei a correr de novo, aos 41 anos, "segundo tempo"... não fazia 500 metros sem ficar ofegante numa corridinha bem leve. Até que me via obrigado a deixar de correr e ficar caminhando, ou até mesmo parar! Então... em meus pensamentos tive certeza de que em pouco tempo daria uma rasteira na dificuldade. Eu me vi forte toda vida... mesmo que houvesse a dificuldade. Eu descobri a força no mar, depois encontrei a superação nos brevets tipo audax percorrendo a longa distância, inclusive machucado. Naquele acidente, uma queda que me deixou com o ombro completamente arrebentado, fui contrariado pelo médico de plantão, que me fez assinar um termo isentando-o de responsabilidade. Eu falei para ele..."estou numa prova, preciso pedalar mais 130 km, e vou conseguir!" Ele... não acreditou, achou que eu estava delirando. Olhou para meu parceiro e disse: "Ele pode?" E Ricardo, naquela simplicidade e confiança... respondeu: "Tenho certeza de que conseguiremos!"
Lá fomos nós... e com a motivação de Ricardo a cada pulsar da dor, consumimos cada quilômetro. Para completar veio a chuva, e não foi pouca... mas seguimos. Faltando 10 minutos pra encerrar a prova, chegamos! Em casa... sentei no box do chuveiro, e percebi o feito. Chorava como se tivesse sido o feito mais incrível do mundo... um misto de dor e de superação, quase não acreditando que teria conseguido terminar naquele estado físico. Foram 13 horas pedalando, das quais 9 horas pedalando machucado. Tal dano no ombro foi grande que fiquei quase um ano afastado da bicicleta... hoje, tenho um ombro caído que poucos reparam, forte como se nunca tivesse passado pela luxação tipo três da clavícula. A cirurgia? Nunca fiz... e estou aqui pra qualquer prova. Faço barra, carrego peso, faço qualquer coisa como se nunca tivesse passado por nada. Agradeço a minha família, além das garotas... Caren, Martiela e Fabíola, ex-companheira, fisioterapeuta e preparadora, respectivamente nesta ordem.
Eu também lutei judô, fui campeão na minha infância, ganhei do menino que sempre ganhava de todos! No dia em que o venci, subi no pódio e ele ficou em segundo... nunca mais lutei, percebi que não precisava competir. Era, simplesmente, mais forte que qualquer garoto do meu peso e tamanho... eu tinha aprendido a ligar o extra de força e confiança quando o pai de um amigo me disse: "Tu é mais forte que ele... mas primeiro tu vai ter que lutar com os outros 4, aí tu chega nele!" Fui... um a um, alguns, achei que nem queriam estar ali. Foi muito fácil... lembro como se fosse hoje. Quando cheguei no temido... ele fazia careta, tinha cara de menino mau! Na hora fiquei com medo... mas olhei pra ele e pensei que era só um garoto de nada, assim como eu! Ele me pegou pelo kimono e dava umas sacudidas fortes. na mesma hora... retribuí. Fechei as mãos no kimono dele e dali elas não escapariam até ele cair. No koshi-guruma derrubei ele e ao mesmo tempo caí por cima imobilizando-o... eu ouvi o ginásio inteiro vibrando com aquilo. Ainda assim... sabendo que o menino se fazia de mau, e judiava dos adversários, pois assim era conhecido, tive pena! Ele chorava... mas a vez era minha. Ali, começou algo que não mais esqueci... o botão que ligava uma energia extra. A mesma que me disse que ia sair da enrascada no mar, que ia terminar um audax mesmo arrebentado, que ia voltar a correr e me sentir bem. Se sinto dor? Sinto... tenho corrido todas as vezes com alguma dor, até que superei todas elas, menos uma! Por hora, convivo com uma dor na canela, lateralmente. Alongo, cuido, repouso, dias depois estou bem, volto a correr, ela volta. Acha que me incomodo? Sim... mas aprendi que faço tudo que puder para que a dor vá embora, mas não desisto de nada por causa dela. Correr me deu alegria extra, saúde de verdade, e tenho certeza que meu verão será de longos dias pegando onda, pois agora tenho fôlego. No filme de Prefontaine ele conta como superava a dor para correr mais e mais, mesmo machucado. No fim... este é o mesmo botão de que falo. Se vale a pena? Bem... depende do momento, depende do que você quer, depende de quão importante é a superação pra vc. Eu não lamento... eu tento! Nosso limite está muito além do que imaginamos!