O vento

Orla de Ipanema, no tempo em que fui um fotojornalista das ruas. 
             De vez em quando vasculho meus velhos arquivos e lembro o que fui no passado. Pra ser sincero vejo mais do que isto, vejo o caminho que me trouxe até aqui. Meus amigos não me escutam mais falar sobre algumas coisas que falei no passado. Me tornei um menino com maturidade. Eu não quero fazer nada impensado e nem me arrepender... gosto de viver nadando na paz. Se é possível? Acho que sim... você não precisa ter sucesso em todas as tuas missões, mas você consegue viver em paz no insucesso se ele for limpo. Dignidade é uma palavra que te leva para outros lugares quando há transparência. E não há nada tão transparente e forte como o vento. Ele empurra a água, move o clima, desloca os animais e plantas... e tudo que esta submetido ao tempo. A ação temporal muda tudo... o formato das superfícies, o amor, a geografia e os olhares. Aos meus próximos passos, expresso meu desejo, curiosidade... e paciência! O mundo não é meu... mas dele tenho tudo que preciso! E escrevo sempre pensando na mulher mais importante da minha vida... mãe, te amo!

O vento... (22.10.2008)

         Ontem, vento veio e soprou a manhã. Uma folha de árvore, seca e curva, correu a rua... dançou em frente a minha janela. No encontro entre dois muros, girou e girou, como se ali houvesse um pequeno cone de vento. Linda e indescritível mágica do vento sobre uma simples folha seca... resto de um ser inanimado, agora movimentando-se como se houvesse vida. Quando atingiu o topo do muro, escapou do turbilhão, sendo carregada por outra corrente... de vista a perdi! Novas folhas vieram, repetindo a cena em frente a minha janela, mas curiosamente, nenhuma delas dançou como a primeira, nenhuma delas fez dezenas de giros sobre o eixo do turbilhão, que somente percebi pela folha. Folhas e pessoas, talvez sejam comparáveis, algumas são comuns e sempre passam, outras... deixam saudade! O cone de vento, só pode ser visto quando a folha interagiu com ele... talvez este tenha sido o que chamam de destino, neste caso, da folha. Pessoas também são assim, precisam de interação e oportunidades. O cone de vento, com toda certeza, estará lá... mas sem a folha seca, jamais será visto, relacionada dependência! Hoje, nem brisa faz... o cone de vento não esta, tampouco a folha seca. Incrivelmente e estranhamente, distintos, combinam entre si... aguardam um novo encontro de vento, como namorados do tempo!

Roberto Furtado