Realidade

Um portador de necessidades especiais recebe café de feirante no Largo Zumbi do Palmares, Porto Alegre, RS.
Foto: Roberto Furtado
           Você só lamenta aquilo que perde... bem, talvez exista outro caminho para lamentar. Não tenho certeza de que se pode lamentar a ausência de algo que nunca se teve. Talvez sim... em um momento raro de lucidez e inteligência que o seu autor consiga imaginar um ideal simples e que não possui. Não é ser excessivamente teórico imaginar situações as quais jamais se viveu? Não tenho certeza de que seja possível, tampouco ousaria dizer que não é... A chave que abre uma descoberta é sempre o pensamento. Girar sobre os pensamentos é comum ao ser humano, mas uma fração bem pequena muda algo com uma ideia inovadora. As boas ideias são escassas... algumas vezes, seres humanos estudam para ter ideias, como os engenheiros e outros profissionais da criação, mas um que outro garante uma história. Criar... eis uma ação na qual sou vidrado. Fico imaginando minhas criações escritas, diferentes da minha fotografia... pois em fotografia materializo a realidade, em escrita crio fantasias, histórias e pensamentos. Ali descobri que havia um lado diferente em minhas duas habilidades... na fotografia, como fotojornalista, conto a verdade buscando ela como linha inquestionável sobre o fato. Não mudo nada de lugar! Na escrita... me tornei, de alguma forma, como todo bom sonhador, um ficcionista. Muito embora tudo origine-se de uma realidade, tudo se cria, como em uma pintura, como em um desenho. Não tenho dúvida desde que criei as linhas de pensamentos e as separei por caixas. Em cada uma delas, guardo, organizo, crio o start para desenrolar um trabalho. Num espetáculo, show... fico atento ao mundo que se monta, dele, tiro minhas emoções e mostro o que interessa. Abro as duas caixas, da realidade e da imaginação, transformando minha ação em criação! Seja o fotojornalismo uma realidade, se desenvolve emaranhado em minhas emoções. Portar a câmera e apontar para o que posso é uma sensação de liberdade, a minha posse de uma sanidade plena da criação. Sou um gerador de conteúdo, versátil! Tento, tirar o máximo da pior opção, tento ver o melhor e diferente de um campo farto. As profundidades, pés livres, luz abundante sobre um céu encoberto de nuvens. Há mais suavidade em um céu de nuvens do que em um céu de sol... a diferença entre sol e nuvens é a opção dramática do cinza, das cores desbotadas. Há quem prefira fotografar com céu limpo, mas eu prefiro o ardor da história. Tal sentimento pode ser percebido no ser humano... o drama vive, de outra forma não se venderia um jornal por tantas histórias lamentáveis. Desde quando jornais eram mais vendidos contando histórias bonitas... o drama vive em nós, mas não só dele vivemos. Vivemos de equilibrar a esperança... e esperança é somente existente no caos, no receio, no medo, no lamento, precisamos ter pelo o que torcer! Eu adoro fotografar o amanhecer e o entardecer, luz amarela, marcante, sombra negras que cortam o laranja sobre o mundo, sobre os rostos. Dá pra fazer drama colorido, mas é mais difícil, de outra forma o branco e preto não seria ainda tão desejado nas fotografias. Tenho tanto a aprender e aos 41 anos lamento ter demorado tanto para saber o que mal sei hoje. Tenho sede, mas uma vida é curta demais e não posso frenar o trem. Sinto-me confuso... poderoso com a câmera, insatisfeito com as resultantes, ainda que consiga com alguma frequência imagens das quais me orgulho. Posso mudar apenas o que depende de mim, do mundo, espero só o que é real, mas... fantasias se montam partindo da realidade. E tenho certeza... entre a realidade e uma outra realidade, muda apenas o enquadramento. A individualidade é o que nos permite criar com o valor do diferente!
E sobre o que escrevo... não é tão bom assim, na verdade sou um fotojornalista e como tal profissional, eu deveria saber legendar uma boa imagem. Na medida em que envelheço, menos sei... anseio pelo dia em que começarei a dominar o conhecimento, mas algo me diz que somente os enganados possuem a certeza.