A companheira solidão

Mono Lake, vista para as montanhas. E eu não me importaria de caminhar por aí outra vez, sozinho. Foto: Roberto Furtado
           É realmente estranho para mim escrever sobre isto... e acho que existe, na verdade, uma dualidade de pensamentos que divergem no caminho do que realmente sou e quero pra mim. Pensei muito... nunca pensei tanto, como nos últimos dois anos. A diferença é que agora, tenho paz toda vez que não recebo influência de ninguém... ou seja, a paz só é ameaçada por alguém. Percebi que a gente nasce e morre sozinho... então aquele medo de não ter ninguém pra segurar a mão da gente é meio natural, mas eu também pensei que de um momento para cá percebi que via a imagem de todo mundo ficando velho. E então, não me imagino na mesma situação. Sou um espírito livre e jovem... e tenho a impressão que o universo me resguarda uma passagem não tão longa por aqui. É apenas um palpite, e falo isto bem desprendido, pois tenho minhas próprias crenças e isto não me causa sofrimento. É possível que eu não sofra porque, talvez, eu tenha resolvido tudo até aqui. E aquilo que não tem solução, como diz Marcio, meu irmão daqui e de outras vidas, já se encontra em solução. As vezes a gente luta e reluta em aceitar uma resultante, sem perceber que ela é inevitável condição de um caminho. Já vivi meu grande amor, já me tornei o que sonhei, já fiz quase tudo que queria... e ontem a noite cheguei em casa e sentei no chão do observatório da dona Silvia. Olhei pro céu estrelado e vi que as estrelas estavam mais brilhantes do que nunca, percebendo que meus olhos se tornaram receptivos e predadores de imagens. Observei uns dois ou três corpos celestes cruzando o céu e fiquei imaginando nossa vida de consumo como um ato meio desfocado da vida real. Não julgo ninguém por isto, apenas não estou me sentindo confortável se não for para ter apenas aquilo que quero usar no momento exato. Meu patrimônio mais caro são os equipos fotográficos que correspondem algumas dezenas de milhares de reais, vitais ao meu ganha pão e indispensáveis a minha felicidade. Fotografia se tornou minha paixão e o meu sustento... me trouxe sorriso, amizade, satisfação pessoal. A solidão... alimentou tudo isto. Ela é minha amiga desde que nasci, me viu crescer, me aqueceu, me ergueu quando chorei. Quando conquistei algo, também chorei, de felicidade, eram fotografias usadas na em publicidade e jornalismo... nunca me senti tão grande por algo tão simples. Ontem, enquanto olhava o céu, senti grande conforto... tive uma nítida sensação de não estar sozinho, embora, estivesse para qualquer um que me observasse de longe. Lua se foi e já não lembro quanto tempo faz, minha ex companheira tornou-se apenas amiga e lembrança, meus pais envelhecem ao ritmo que dificilmente suporto. E talvez este texto não expresse minha felicidade, mas estou. Nunca fui tão feliz na minha vida... é como se tivesse encontrado a paz na guerra. Sou do front de jornalismo, mas talvez nunca vá atrás disto, pois não basta você ser apto, será preciso querer! Logo... devo pegar o voltante do automóvel e ir para algum lugar, sozinho. Sabe o que acontece? Amo todos meus amigos, mas amo a mim, mais do que tudo. Então me basta tempo que passo com meus amores, mas o tempo para mim mesmo, parece sempre curto. Um dia serei proprietário de mais algumas respostas, mas até lá ficarei com esta paz caminhando pelo planeta, como um louco de cara! A minha companheira se chama solidão... regida pelo universo. Não acredito que exista alguém capaz de sincronizar comigo. Se preciso das pessoas? Claro... mas também me sinto capaz de atravessar o mundo e sobreviver a qualquer coisa. Não acho que há muitos como eu por aí... mas também não acho que isto seja bom, pois de outra forma o mundo seria feito apenas de textos. O que mais fiz nesta vida, me parece que foi escrever e fotografar, ambas opções são claramente alimentadas por solidão.