A natureza de cada


        Quem lê meus pensamentos deve pensar que estou perdido... perdido de caminho, de razão, de amor, de anseios é que não! Fico tentando supor o que pensam as pessoas sobre mim, embora toda vez que converse com elas, apenas uma fração bem pequena me espanta. Sempre quero ser surpreendido pela inteligência e astúcia das pessoas, mas é uma raridade isto acontecer. Talvez seja apenas um elevado grau de exigência, que faz de nós, eu, talvez outros, buscarem incessantemente por um ideal quase lúdico. Pudera eu ser tão inteligente assim, para transformar o mundo, pois para limitar a minha existência não me cativa. Queria justamente gerar este temporal de pensamentos que agora passa por tua mente... e antes que desligue-se do texto numa precipitada ação, deixo-te a pergunta. De onde surgem as conclusões? Se de reflexões estamos a evoluir, me dê um motivo para não fazer. Somos contrários a tudo que nos melhora... buscamos a estabilidade, o conforto, a facilidade, deixando para trás tudo que pode nos aperfeiçoar. Qualificar... nos qualificamos na medida em que temos resposta para algo ou, quando buscamos. Um dia, meses depois de estar separado e, cito esta fase importante da minha vida como uma libertação da minha evolução, fiquei a observar a tempestade que se aproximava. Sentei em frente a janela do meu quarto, coloquei a câmera no tripé. Apaguei a luz do quarto e abri a janela... senti o vento, a tensão do clima, os relâmpagos sucedidos de estrondos. Lembrei do meu passado, próximo, distante, minha caminhada até ali. Pareceu não fazer sentido de início, mas aos poucos, naturalmente, fui vendo propósito para tudo. Estou aqui, como você, tão cheio de perguntas complexas que talvez parte delas possam ser respondidas... mas é as que não podem ser respondidas que fascinam. Aprender... possuir a sensação. Olhar a forma de tudo, supor com o tato, saber que algumas coisas da vida são amorfas, indefiníveis. Nossa complexidade, uma doença exclusiva da espécie humana (não diga raça humana), nos transporta para uma inquieta necessidade de perguntar e alcançar respostas. E maturidade não é saber responder, mas sim continuar perguntando sem estresse por desconhecer. Há tanta coisa para saber, que mesmo que soubéssemos coo perguntar, como responder, ainda assim seria a vida curta demais para realizar todas as questões. Uso tudo ao meu prazer, o ato de respirar, pedalar, correr, amar! Eu corro, próximo dos quarenta e dois anos, como se minha mente pertencesse a um jovem de vinte anos. Sinto cansaço quase absoluto, nos meus vinte e três minutos para correr cinco quilômetros, percebo que é da exaustão e deslocamento que surgem os pensamentos. Uma máquina do tempo dentro de nós... nos transporta temporariamente para um estado espiritual capaz de ser exclusivo de um momento, inigualável, furtivo do tempo. Tempo roubado para nós mesmos, onde o pensamento é novo, único e intocado por quem observa. A natureza de cada um... óbvio que nos molda de individualidade. Correr se tornou minha fonte de inspiração, muito embora seja um ato primitivo. Nem uma das graduações fez tanto por mim, exceto em bagagem acumulada. Viver como um jovem, estando no meio da trajetória poderia ser a descoberta da fonte da juventude. Ponce de Leon procurava por um lugar capaz de rejuvenescer, mas a verdade é que este é um lugar dentro de nós. A natureza de cada, permite, viver além de si mesmo...