A estranha paz que eu procurava...

Algum ônibus incendiado no centro de Porto Alegre, cliquei com um Samsung J7.
            Gosto de fotos assim... fato, sou um fotojornalista. O drama me persegue, eu persigo ele, nos encontramos no momento marcado em um espaço tempo que vira notícia. Respondo com imagens que retiro de algo, capturo, conto para todos o que vi. Isto é ser um fotojornalista... eu corri muito atrás deste título, um tanto desmerecido e desvalorizado entre outros tantos em igual situação. A transformação do mundo arruinou nosso ofício, aconteceu com outras atividades também. Nunca estamos preparados para o fim de uma atividade, principalmente quando esta atividade parecia ser o amor da tua vida. Ela acabou... alguns colegas ainda lutam pelas migalhas jornalísticas, dá pra ver isto nas redações. Salários tão baixos e vagas em decréscimo... só não vê, quem não quer, até que seja chamado em direção à porta! É fato, é notícia... todo mundo de telefone na mão, jornalistas da oportunidade. Nunca mais fomos rápidos o bastante para superar o celular voraz que espreita a chance de ganhar as redes sociais. Tanto faz... motivo, outro, pouco importa. Nos alimentamos de imagens, mendigávamos por uma chance de dramatizar uma história com imagem chocante. Dava pra fazer parecer pior... aí é que foto tinha valor. Ou era apenas uma questão de como alguém contava a história que a gente clicava... confessar esta verdade mata o jornalismo? Não sei... me parece que drama ainda é mais interessante que simples informação. E eu corria do jeito que podia, pela cidade, ou fora dela, atrás de uma notícia ou boa foto que me desse o valor que gostaria de ter. Qual fotojornalista não fez isto? As pautas que pagavam melhor eram também as mais mornas... mas as pautas quentes eram pobres demais para freelancers. Verdade... e eu procurei pelo prestígio que nunca tive, uma capa de jornal, ou outra. Nada de mais... alguns reais no bolso, menos que a conta de telefone, sempre! A pauta que pagava por várias contas era aquela mais gelada que uma cerveja de bar em noite de inverno gaúcho. Também não tinha graça nenhuma... fazer a foto de alguma porcaria sendo inaugurada pelo governador que fosse patrocinada pela iniciativa privada. Era o que tinha, era o que era... a verdade, nua e crua, mas eu... queria a porra do prestígio. E mais, queria apenas ser bem reconhecido. Hoje, quando olho para trás, penso em tudo que sacrifiquei em busca de um sonho... acho que fiz o que tinha que fazer, mas não valeu a pena. A estranha paz que eu procurava era a certeza que viria de mim mesmo... me tornaria capaz de fazer qualquer pauta, sem errar, na frieza de um atirador de elite, sem pensar quem cairia ou a quem atingiria o fragmento do tiro eficaz. Nós somos assim... ligados ao compromisso de contar a verdade, doe a quem quem doer. Bem verdade que com a idade a gente se torna mais vulnerável, mais emocional, mais tolerante, mas não menos dramático. A gente sabe muito bem o valor do drama no jornalismo... eu, bem, pelo menos nas atuais condições do jornalismo, parei. Não faço mais... se sou ainda um fotojornalista? Claro... nunca deixa de ser quem se torna um tipo especial da fotografia expressiva e informativa. Parei... vivo de outras pautas, outras oportunidades mais serenas e menos quentes. Encontrei a paz... aquela que me faz deitar no travesseiro e pensar: "tu sabe fazer melhor que ninguém... mas não vale a pena!" Assim, meio que se explica tudo que parei de fazer... a resposta é, parei porque não pagava o frete! Não se deixe enganar... se te disserem que eu e outros mudamos de interesse, mentira! O que mudou foi o pagamento que não cobre as despesas do material e do profissional. O fotojornalismo... verdadeiro, morreu! Ele virou publicidade... e hábito de exploração de quem usa as imagens como informação. Talvez sejam duras palavras ao contratante... mas imagina para o profissional, portador de materiais caros, técnicas, um olhar atento. Enquanto isto... os trabalhos continuarão sendo executados, por máquinas de corpo de plástico, lentes de pequeno diâmetro, jovens que podem até começar nesta atividade, mas que não ficarão mais do que dois anos, pois nenhuma ambição se alimenta com prestígio da publicação. O que sustenta continuidade do trabalho é valor compatível... o resto é balela! Enquanto aguardo por uma nova transformação... durmo mais um pouco nas manhãs frias, também fico com a família nos sábados e domingos. É a paz que eu procurava...