Com as ondas... ela veio outra vez!


Nela pensei... sempre penso, na garota que atualmente compartilha comigo, de um tempo que não volta, de um lugar que só existe em nós. Hoje entendo coisas que não entendi durante muito tempo, não sei se é pela maturidade, ou simplesmente porque ela me oferece um lugar para entender. Me lembro dela quando criança... cabelinho curto, bem desligada, camiseta mais comprida que a cintura, carinha de braba, sempre chamando o irmão mais novo. Eu via aquela garota e pensava algo como querer ser amigo dela... uma ingenuidade de criança com uns 10 anos, nem lembro exatamente da idade. Eu queria ser amigo dela... e ela nem dava bola pra mim. No colégio, mais tarde, eu olhava para ela e não esquentava muito a cabeça... ela não olhava para mim, mas tinha uma dúzia de meninas que olhava para mim. Meninas bonitas... interessadas, algo mais fácil de lidar quando temos 15 anos. De fato, mesmo que fossem bonitas, mesmo que estivessem ao meu alcance, ainda não eram a garota que eu olhava desde menino. Ela não era única... uma das meninas que me dava bola, eu também gostava, por assim dizer. Então... estas coisas a gente nem entende. Quem gosta de nós, quem não nos dá um momento de esperança. Provavelmente fiz o mesmo com muitas garotas, sem saber! Então, a menina que me dava corda virou minha namorada... e com ela fiquei algum tempo. E no colégio, via a menina do cabelo curto... loirinha, jogando volei, na minha frente. E enquanto isto minha namorada jogava bola na quadra ao lado... coisas que a gente nem entende. Juro que não pensava besteira... apenas olhava como curioso e admirador secreto. Depois... me desprendi do colégio, fui estudar em outra escola e pouco tempo depois também terminei o namoro. Fiquei um tempo sozinho e até pensei em procurar a menina de cabelo curto, mas não fui. Nunca tive um sinal... não fazia o menor sentido. Naquele tempo não tinha isto de rede social virtual, mal tinha telefone celular. Então, o contato que nem existia foi definitivamente extinto. Passei por algumas amigas, mas nenhuma chegou a ser namorada... até que conheci a garota com que passaria os 18 anos seguintes. E assim, foi... nunca mais vi a garota de cabelinho curto. Um dia, chegou a hora... me separei depois de vários tropeços da falta de sincronismo. Trabalhei, estudei, nas horas vagas chutei muita lata na rua... muito saí com os amigos. Algumas garotas conheci... mas faltava algo. Eu já saía com as garotas pensando... "certo, relaxa, deixa rolar!", mas de verdade nada implacava, não me apegava. E havia garotas legais... 
Um dia, acho que encontrei a garota de cabelo curtinho no FB. Ela... andou curtindo algumas fotos, acho que foi assim. E resolvi puxar uma conversa privada. Respondeu... conversamos, convidei pra um café. Topou... e nos encontramos. Quando ela chegou eu estava surpreso, mas desligado. Fomos caminhando até um bar e conversando no caminho... sentamos em uma mesa, pedimos algo e fiquei ouvindo algumas coisas, falei outras. Desenterramos o passado... ela jamais imaginou que eu pensava nela quando criança. E claro que não falei... em algum momento eu tive um estalo. Era como se estivesse olhando para aquela menina que conheci aos 10 anos. Senti uma vontade de estar perto, conversando, exatamente como no passado. Uma ficha caiu... e ali, tudo recomeçou. Não como antes, agora já faz mais de ano que nos vemos. E pego na mão dela exatamente como quis fazer cerca de 30 anos atrás! Assim como as ondas do mar, pessoas vão e vem sem explicação. Ciclos contínuos de surgir e sumir, talvez permanecer algum tempo, talvez ficar! Ela veio... gostaria que ela ficasse, mas tão incerto era ela ressurgir, talvez seja também permanecer. A lição disto tudo... somos todos livres para ir, temos algumas vezes, motivos pra ficar, mas as razões e momentos da nossa vida escrevem estranhas caminhadas com solidão, também com pessoas passageiras, com pessoas que mesmo que sumam algum tempo, voltarão. Não importa... o que importa é quanto este alguém deixou em você. E isto é exatamente o quanto esta pessoa foi ou é importante. O adeus inexiste... uma vez vivido, nenhum momento pode ser totalmente apagado, ele terá transformado as pessoas em algo melhor. Sobre cabelinho curto... ela esta presente na minha vida, atualmente. Caminha comigo nos parques, toma café comigo nas cafeterias e padarias, saímos para jantar, de vez em quando viajamos juntos, vemos filmes e bebemos vinho. Ouvimos e gostamos de música... também discutimos! Seguidamente busco ela na rodoviária, quase um ritual, que agora no inverno nem tem sido ruim, pois ela se transformou no meu calor.