Estou em casa... estou livre!

Farol da Barra, São José do Norte, RS, 2018.

Farol Chuí, Barra do Chuí, RS, 2018.

Farol da Verga, Santa Vitória do Palmar, RS, 2018.

Orca morta, Cassino, RS, 2018.
           A casa da gente é onde a gente quer ficar... É mais complicado do que parece quando a gente fala... no entanto, algumas vezes, as coisas se organizam e oportunidades são oferecidas para entender. Encontrei a fotografia tardiamente, embora ela batesse à minha porta algumas vezes desde a infância. É preciso estar pronto, amadurecer para que o sentido das coisas se aplique ao teu momento. Foi isto que percebi quando, aos trinta anos, aproximadamente, iniciei minha caminhada fotográfica. Todo começo é um desafio e vi crescer em mim as intenções fotográficas tão desejadas, mas sem nenhuma paciência de esperar, sempre tive medo de estar atrasado. Não existe atraso... o tempo de cada coisa, de cada um, é o tempo certo. Uma colega me perguntou a quanto tempo eu era fotojornalista... eu demorei um pouquinho pra responder porque sabia que havia duas respostas para isto, mas somente uma delas realmente atenderia o que ela perguntava. Respondi que era fotojornalista a cerca de 10 anos, mas tinha vontade de responder: "Desde de sempre!" 
Não tenho dúvida de que um fotojornalista já nasce com este propósito, mas sei que ele pode levar tempo para brotar dentro de cada um... e talvez, permaneça adormecido para sempre dentro dos que percebem quão complicada é esta opção profissional. No entanto, ser livre é inevitável... toda mente sedenta por liberdade se imagina fluindo por caminhos que o permitam no conforto das escolhas. Desde criança me imaginei caminhando na savana africana observando a vida selvagem. Eu dizia que seria um dia como Jacques Cousteau e tinha nas minhas preferências as histórias e filmes de aventura. Era, fui e sou um sonhador da liberdade. Eu caminhava na beira da praia do Pinhal e olhava para o sul sabendo que alguma coisa me atraia para lá, mas uma criança não saberia o que havia no sul. Sentia que a natureza me aguardava, clamava por uma integração... esperava por mim, talvez, para protegê-la, de um jeito que eu poderia e que se quer podia imaginar como seria. Caminho por estas areias há mais tempo do que imagino, como se tivesse vivido outra vida sentindo o cheiro daquela areia úmida da região costeira do estado pampeano. Me pergunto de onde surgem estes pensamentos e por um tempo até pensei que era algum tipo de loucura, mas a lucidez e minhas sóbrias decisões colocam uma certeza de que é instinto. Nós, fotojornalistas, somos tão instintivos... nós somos predadores fatos, atos, motivos e perguntas. Não me incomoda, não mais, saber que muitas perguntas ficarão aqui com lacunas por responder, mas me preocupa não fazer as perguntas. Saber que algumas perguntas ficarão sem respostas é um processo que nos faz perceber que muitas questões foram respondidas pelo caminho!
Eu achei que era um nômade preso aos sentimentos, achei que iria embora e que talvez nunca mais voltasse, mas existia um sentimento que me fazia querer voltar, muito, depois de alguns dias fora. Foi então que percebi que estava em casa, no meu lugar, no meu cenário, no meu ofício, no meu mundo! Eu ando, conheço as pessoas e fico com saudade, percebendo toda vez que somos solitários que vagam no corações de cada um. Somos insubstituíveis, sendo substituídos na ausência e na presença, pois a rotatividade nos faz crescer e amar. Este ciclo vivido é o exercício da percepção e a cada passo estamos maiores. Ao tempo que em algum momento não seremos mais os mesmos, tampouco do tamanho que somos, livres mesmo vivendo nas cidades de concreto com seus modelos de estrutura. Não sou confuso... nem um emaranhado de ideias vagas. É que não sou um vazio e me libertei há tempos de algo que agora me permite questionar. Optar é para quem aceita, não perceber é uma pobreza, e enfrentar é coragem! Se vou mudar as coisas com minha existência não depende de mim... o que depende de mim é fazer, o que não depende é incalculável e aproveitamento de um sistema. Mostrarei ao mundo, seus problemas, suas belezas, mas deixo suas decisões para suas prioridades de importância. Pela primeira vez na vida estou me sentindo em casa, livre e construindo meus próprios pensamentos sem me importar com o que as pessoas pensam. A minha áfrica é esta... meu universo selvagem é violado, mas é meu, perto de onde vivo e nele vou criar minha obra de vida. Caminharei em outros lugares? Sim, mas estou em casa e estou livre!