Rota dos Faróis... persistência!

Print de tela: http://www.rotadosfarois.com.br/
Poderia chamar de um retomar, mas a gente não retoma aquilo que jamais parou... em um ciclo de acrescentar novos materiais ao todo de um projeto documental, sigo adicionando este trabalho autoral. Gosto de reforçar que mesmo me vendo sozinho em grande parte do tempo deste volume total, tive e tenho o apoio de muitas pessoas. Algumas vezes, confesso, tive vontade em parar, pois é realmente precioso o tempo e mais ainda agora, que tenho passado mais horas com minha família. Fico pensando se as pessoas poderiam ou deveriam saber sobre todos os obstáculos do projeto, mas estes pontos da dificuldade se confundem com a minha vida pessoal e explicam o valor deste conjunto de informações. Informações que vão além de fotografia, podem contar com curiosidades que até a pesquisa poderia se apropriar, tal como a importância de um trabalho documental. Sigo... mais ainda agora em memória de meu pai, motivação para minha família, algum exemplo para quem achar que isto é uma referência, assim como alguns dos meus colegas e amigos da fotografia. Quem sabe um dia isto não seja visto como um presente que ofereci ao RS como gratidão pela oportunidade de fotografar. Há muitas formas de se ver isto... 

Pai, te fiz uma carta... Pai, confia!


Pai, estou aqui... e depois de alguns dias sinto tua falta ainda, mais, embora pensasse que isto reduziria. Acontece que estive em muitos lugares e nestes levei em meu coração todos vocês lá de casa. Toda vez em que estive longe, parando ou olhando para algo diferente, pensava em vocês. Embora você tenha sido relapso com a relação entre nós dois, estivemos juntos muitas vezes nestes 43 anos... e estive em lugares que somente tu estava comigo. Eu sinto tanto tua falta... queria tanto que tu tivesse mudado e cuidado da tua saúde. Lembra quando eu brigava contigo para abrir o olhos e mudar? Pois eu sabia que eu sofreria... e tentei me afastar de ti, pensando que foste mudar, que mudaria por nós. Não entendo o que se passava na tua cabeça... e agora não importa mais. O fim pra ti chegou... no dia da tua cirurgia eu te disse que daria tudo certo, pois queria que tu ficasse bem e tivesse paz, mas eu sentia que algo daria errado. Algo me dizia que um organismo tão debilitado não suportaria tamanho desafio... pois saiba que me surpreendi. Lutaste bem bravamente, por tempo maior que imaginei. Não sei se isto não piorou teu sofrimento, mas enfim, reconheço tua luta. Sentirei tua falta... e me pego pensando que não estará aqui pra me dizer qualquer merda inútil, como frequentemente dizia. Confesso que eu ria das bobagens... as vezes me dava um certo desespero, porque muitas vezes eram bobagens em tempo integral. Talvez fosse eu quem devesse amaciar, talvez! Quando Titi viu esta foto... ela falou que parecia que tu subia a escada do céu. Eu me lembro perfeitamente do momento em que bati esta foto... que tu me concedeu o clicar eterno, pra algumas atividades da faculdade. Me pergunto as vezes que profissão é esta que assumi, que me permite fazer recordações irreais, sem calor ou cheiro. Por outro lado tenho isto agora, pelo menos isto. Espero que de alguma forma tu tenha aproveitado o que pode nestes 71 anos... e que esteja em paz. Vou deixar você partir... não ficarei mais desejando que você retorne, pois você precisa ir pelo inevitável e eu preciso de paz. Não tenha medo... te amo, com todo erro, com todas as brigas, com estas experiências que nos fizeram. Segue... ficarei aqui até a minha partida, pois me disseram que a mim haveria ainda uma longa estrada, acreditei. #gratidão do teu filho mais velho. 

Isto é quando penso em você...



        A partida de um ente querido é sempre um prato quebrado... além das muitas perguntas que não podem mais ser respondidas, fica a falta que faz pra tudo, a saudade e as lembranças. Este conjunto de gatilhos da nossa mente é o que deveríamos desvendar. Tudo liga e desliga sem importar-se com nossas vontades... e já que é assim, não pude pensar em outra coisa que não fosse falar um pouco sobre isto. Meu pai e eu tínhamos algo muito estranho... nos amávamos, também brigávamos, pois ele era tão mais teimoso que eu, sem importar se estaria certo ou errado. E acho que é bastante natural haver estas dificuldades da sincronização das personalidades. E de fato... muitos que o conheciam deveriam ter outras impressões sobre a personalidade. Agora, não é mais momento para provar que ele era assim ou assado, até porque o direito de resposta inexiste, seria injusto. Não é mesmo, pai? Bom... vou falar de coisas boas. Como uma lembrança muito vaga, dele comigo, na praia, quando eu era tão pequeno enchendo um caminhão de brinquedo com areia, castelos de areia, sol na cabeça em um tempo que a camada de ozônio existia, e a gente nem se queimava, mesmo que ele fosse bem claro. Ele me ensinou a dirigir... eu já sabia dirigir com 11 anos. Também me ensinou a pescar... e me tornei um pescador muito melhor que ele. Me ensinou muita coisa... e acredito que fiz quase tudo melhor que ele. Eu disse quase... Ele fez uma família que eu jamais consegui. Ele teve três filhos... com a mesma mulher, minha mãe. Minha mãe é a mulher mais sensacional que já conheci... então ele escolheu muito bem a pessoa com quem dividiria a vida. Ele errando sem corrigir os erros... e ela ficou com ele até o fim. Ele comeu e bebeu de tudo... e de todo. O que muita gente faz somente aos domingos, vi meu pai fazer o ano inteiro, pela vida toda. Dávamos bronca nele... pra não comer coisas gordurosas e para beber menos cerveja, mas a vida dele foi assim... e assim ficou até o dia em que foi para o hospital. E contrariando todas as expectativas pós cirúrgicas, ele entrou em forte ritmo de recuperação... e já parecia em vias de sair do CTI quando foi observada a septicemia e poucas horas depois ele falecera. E este foi o fim da estrada dele... aqui neste plano. 
Estamos muito tristes, mesmo que soubéssemos que o desleixo com a saúde fosse fato conhecido. Agora, ouço muitas histórias, de pessoas que nem conhecia, que falam sobre ele... coisas variadas, sobre trabalho e vida pessoal. Ele tinha 71, era engenheiro eletrônico, aposentado, da CEEE, tenente da reserva, um velejador experiente, embora desligado das águas há tempos. Eu e ele fizemos algumas aventuras juntos... pelas estradas e pela beira de praia. Na praia é que a gente mais fez coisas juntos... uma vez estivemos juntos no farol caído, farol conceição. Lá fiz a foto com ele junto da base do farol. Acho que foi em torno de 2010, já não lembro. Este ano, 2019, passei pelo Farol Caído e constatei que a construção estava mais pra dentro do mar. Comprovando que o tempo passou... ele estava mais barrigudo, o farol mais no fundo, mas a foto guardou a prova de que tempos atrás estivemos juntos, que o farol estava quase no seco e que a barriga era menor. Tenho quase certeza que meus amigos irão rir disto, pois os que o conheciam, muito gostavam dele. Ele tinha este jeito... meio engraçado, vagaroso, amável, teimoso, imutável! Sabe... vai fazer falta, não era um vivente fácil, mas amávamos muito. Coisa de família, sabe? A gente ama... né? Sobre ele tem muita coisa que vai se perder no tempo, algumas somente eu vou lembrar, mas ele me ajudou até com a Rota dos Faróis. 

Ele era topógrafo...

Sobremesa - Produção fotográfica e fotografia: Roberto Furtado, 2019.
Quando chega esta época do ano fico a pensar no meu avô... de alguma forma, consegui não guardar a data de partida, mas não esqueço a época do ano. Lembro que eu estava no fim de um semestre de engenharia... As palavras dele foram sempre muito marcantes para mim. E sei que ele queria estar próximo de muitas histórias que eu veria... lembro de coisas simples, como nossas idas ao supermercado, a pé, um ritual para ele depois da aposentadoria, na busca do café e pãozinho da tarde. Ele sabia a hora que o pão estava novo! Uma das vezes, paramos na avenida Teresópolis, reparamos na obra que transformaria aquela avenida na terceira perimetral, hoje, ela parece uma avenida antiga para os jovens nascidos no final da década de 90, mas ela é uma obra deste século. Ele olhou pra obra e me disse: "Estou louco pra ver isto pronto!" Não viu... Ele gostava destas coisas por passar a vida toda trabalhando nisto, ele era topógrafo, mediu muitas estradas, canais, propriedades... trabalhou em obras importantes. 
Ele foi a minha referência... Hoje, encerrando mais um ciclo, inevitável pensar nele, também por ser esta época do ano que ele se despedia. Em memória a ele, faço meus pensamentos, como se fosse uma prece. Pra que tudo continue calmo e bom nos próximos ciclos. A fotografia... bom... foi meu último trabalho acadêmico na graduação. Uma produção de sobremesa, luz de janela + luz de iluminador de led, com tripé, 2 segundos exposição. Montado por mim, fotografado por mim, tratado por mim, e deveria estar bom. Não sei... dei para o meu irmão, pois faz duas semanas que não corro meus 5 km de cada dia. 

A paz de um fotojornalista...

Cânion Fortaleza, 2019.
Separar o olhar profissional dos pensamentos pessoais é impossível, claro! Nesta caminhada de reflexões foi preciso paciência... ir e vir, voltar, caminhar outra vez, mudar as parcerias, estudar, dizer não para muita coisa! Foi preciso viver pra entender... o que existia e o que existe, também do que depende. Hoje sei o significado... de saber a hora de parar de fotografar algo belo e apenas observar. O processo de presenciar algo fantástico não pode ser superado por uma fotografia ou video, mesmo que espetaculares. Viver um momento e ser testemunha em tempo real, muitas vezes, traz com esta experiência uma oportunidade e contexto que jamais serão passados ou interpretados pela captura. Não existe fotografia perfeita, não existe video perfeito... perfeita é a vida em tempo real! Durante toda minha estrada guardei algumas informações que foram processadas pelos 43 anos que ganhei de presente. Aqui, nos últimos quatro dias convivi com outras pessoas, em cenários e situações que já havia vivido antes... borboletas, flores, cânions, natureza vibrante! Uma de minhas interações era um menino curioso de oito anos que a cada novo cenário lançava suas perguntas. Questões muito simples ou mesmo questões geniais, que nós, adultos, esquecemos de alimentar pelo passar do tempo. Deixamos para trás nossos olhares da pureza e da imaginação... perdemos com o tempo. Ao perceber como foi produtiva uma convivência carregada de outro olhar, percebi o quanto fui enriquecido, como adulto, como profissional. Todo olhar do homem se transforma em carga para o seu trabalho... E parecendo não estar tudo relacionado, como antes pensava, descobri que entender isto se transformou em paz para mim, como fotojornalista, também.

Liberdade é um post sem nome!


É comum pensar em sair por aí... a liberdade nos tenta! O Diário do Andarilho foi um natural ajuntamento de palavras e imagens. Não imagino ter tanto para expressar e manter isto aprisionado... também tenho sede de sair por aí justamente para alimentar isto. E não consigo entender quem pode desbravar um horizonte e fica sentado na cadeira ou numa cama quente. O frio, também o calor, pede uma aventura... que saia, vá ver o que tem logo depois do conhecido. Assim, como todo viajante e aprendiz... não fomos feitos para ficar em caixas fechadas, fomos feitos para subir em carrinhos de rolimã no topo de uma ladeira! A combinação estudo e trabalho é uma opção temporária... não há tempo para ir quando se combina duas atividades. E ir é fundamental... esta entre linhas ou explícito em páginas de Amyr Klink, Saint-Exupéry, Richard Bach, dentre outros notáveis viajantes do espaço e tempo. Em uma contagem regressiva, o que realmente queria... prestes a surgir! Ambiciono, nem que seja por uma semana livre da espera e do aprisionamento de algumas horas, um real direito de ir e vir. O telefone não vai tocar durante sete dias, nem aula haverá, ou tarefa para honrar... será, por todo direito, uma breve pausa com enriquecer de horizonte. Um lugar onde as linhas se juntam... do horizonte entre chão e céu, com direção ao infinito e distante da estrada que não termina, talvez nuvens que colidem com o chão. Um feixe de lanterna, um iluminar das estrelas... talvez sons de automóveis que surgem e somem no silêncio da noite. Há muita coisa para imaginar quando se quer... mas eu não consegui pensar em um bom nome para este post. Então... decidi que chamaria, simplesmente, de liberdade!

Caminho bom...


Outro dia caminhava com os pés machucados pelos dias de trabalho e refletia sobre a estrada que eu estava... uma estrada de chão batido, bem úmida, com mosquitos em fartura! E tinha este sol querendo passar pela serração baixa. Trabalhei com os pés molhados por alguns dias seguidos. Tinha dores do excesso de caminhada e bolhas, mesmo que fosse um corredor, senti isto. Já acho que correr 10 km com os pés secos é sereninho. Foi dureza todo aquele caminhar... mas estava feliz, muito feliz. Por ter trabalho, por fazer o que gosto, por ver que fazendo as coisas do jeito certo dá pra acontecer. Aprendi muita coisa... aprendi que devemos fazer escolhas pelo caminho. Trabalhos e pessoas devem ser deixados para trás quando não acrescentam... pode ser duro, mas é preciso! Isto faz parte do caminho... sofrer fisicamente ou mentalmente é uma construção continua e de muito valor. Este dia marca a última mensalidade da faculdade que estou concluindo! Administrar trabalho e estudo é difícil... é mesmo! A minha sorte é que me planejei e não deixei o TCC para o final... fiz antes! Pra não ter o peso que teria o final do semestre. Durante o caminho olhei para todas estas questões com desconfiança... se teria feito as melhores escolhas. Agora, parei para olhar de outro ângulo. Olhei para trás... e vi uma etapa concluída. Que marca muita coisa... e só eu sei quanto isto representa. Representa liberdade... crescimento profissional e espiritual! E foi nesta caminhada que eu ouvia o som do solo com o pisar dos meus pés doídos que refleti sobre tanta coisa... e vi esta imagem e pensei, "colocaram isto aí pra mim, agora, pra eu fotografar! Afinal, sou um fotógrafo..." e sou também um redator, sempre fui! Fui e passei por várias provas de fogo... cheguei aqui, com cicatrizes e dentes quebrados, ombro totalmente luxado, pernas e pés cansados. Eu virei um corredor da vida... um fotógrafo / fotojornalista, de bom humor e vida leve. O céu é o limite e eu sempre fui assim... muito forte. O restante do caminho vai ter que ser mais duro que eu... ou não vai ser páreo para mim!

Agradeço aos participantes da minha caminhada, todos! Em especial aos que tiveram paciência, carinho, cumplicidade.