A razão certa para seguir um ofício...

             Muitos dos meus amigos sabem que antes de ser fotojornalista, trabalhava com vendas... estudei um pouco de cada coisa, sou técnico de veículos automotores, embora nunca tenha exercido esta atividade. Fiz alguns semestres de veterinária, mas não representou muito, pq fiz poucas disciplinas por semestre, depois fui para engenharia mecânica, e já havia passado da metade do curso quando resolvi que não era aquilo que queria para minha vida. Muito antes de tudo, me lembro que cogitei cursar jornalismo, mas fui inseguro sobre esta atividade e confesso que pesou muito o fato de não ter nenhuma oratória e ainda ser tímido frente a qualquer "multidão" com mais de 10 pessoas. Fato... timidez não é para jornalistas! Ou seria? Percorrendo algumas pegadas deixadas pelo meu avô paterno, fui encorajado de estranha forma... sabia eu, que era hora de mudar, de fazer algo que eu gostaria, mesmo que o retorno com o ofício jamais se parecesse com o das vendas. Aliás, as vendas não andam bem atualmente, até onde sei, e possivelmente aquela necessidade de mudança anos atrás já era um indício de que eu deveria realmente ter seguido meus instintos. Como minha mãe sempre diz: "siga teus instintos!"
Durante anos eu apertei o grip da câmera, algumas vezes me emocionei sozinho fazendo fotojornalismo no meio de manifestações ou contando histórias de pessoas. Alguns anos atrás eu acordei em um velho barraco de madeira no litoral, numa vila de pescadores... eu tenho o hábito de pescar de forma amadora, porém dedicada. Foi de frente para este nascer de sol, com os pés na areia que eu pensei: "Encontrei minha razão! Eu estava certo..."
Hoje, faço de vez em quando algumas disciplinas dos cursos de fotografia e audiovisual, pois é bom para mim... aprendo! Nunca senti falta da engenharia, tampouco de outra coisa do passado. Foram ensinamentos valiosos que tive e carrego pra vida toda. A física que aprendi uso constantemente na fotografia... para tentar entender a luz que compõe a forma e o contorno das superfícies. Eu brinco com a luz, eu conto verdades, eu me peguei apaixonado por um ofício. Cometi loucuras de amor pela profissão... eu não tenho vergonha de nada que fiz, apenas orgulho de tudo que passei para chegar até aqui. É bom dizer que sabe fazer, que ficará bom... é bom surpreender o cliente ou espectador. É bom acordar pela manhã e dizer: "Tenho o melhor trabalho do mundo, morreria por ele!" 
Então vc percebe que ganhou na loteria, quando no passado cumpria rotinas para ganhar o dinheiro e não via o menor sentido naquilo tudo. Um dia que passava rápido, sem nenhuma razão para mim. O ofício que encontrei deve ser desinteressante para outros... para mim de hobby virou trabalho! Me lembro ainda nos anos 90 eu com um máquina de filme nas mãos, sem recursos, gerando instantâneos que provavam a existência de algo, inclusive a minha... como autor! 

Barbada é o sentimento alheio... banalização dos valores!

Feira do Livro de Porto Alegre, 2015. 

            O que mais faço na atualidade... converso com as pessoas! Sou um repórter, mesmo que fotográfico, sou um jornalista... sou bicho curioso, tenho fome de história! Eu pergunto, pareço metido, osso do ofício! Eu ando muito, detono os tênis... dirijo muito, acabo com os pneus, eu só gostaria de usar a bicicleta bem mais do que tenho usado. Acho que nunca vou ter aquela sensação de que podia ter feito mais coisas... pq estou sempre cansado, pq sempre estou fazendo uma história, sempre conversando com as pessoas. Geralmente, nunca mais vejo, mas algumas vezes fico até amigo. Rede social tem papel importante... promove um encontro ou pelo menos alguma troca de informações, mesmo que em tempos diferentes. Muitas abordagens recebi nos últimos dias, algumas eu mesmo fiz... outras, me espantam. Grosseria é um "troço" que não assimilo bem. Quer conversar, conversa como gente que pode andar solta... quer ser grosseiro, arruma uma pedra pra socar! Acho que educação não é só aquela de saber dizer bom dia, perguntar como as coisas vão... se vc não tem trato pra descartar uma conversa, aí entra naquela história, sabe? Sabe o que tem o vivente mais que eu? Tem mais é que se F....
A grosseria só alimenta duas coisas nesta vida... mágoa e grosseria revertida. E tenho conhecido muita gente grossa, especialmente aqui no RS. Puxa, dizer isto aqui na minha terra é uma tristeza para mim, mas vou dizer. Tenho conhecido paulistas, catarinas, cariocas, amazonenses, gente de todo Brasil. As pessoas mais grossas no sentido de mal tratar as pessoas, tenho visto aqui no Pampa. E não é uma porcaria para se orgulhar... então estamos bem. Nossos livros e serviços não estão valendo nada, nossa segurança embora custosa não nos protege de nada, nossos sentimentos também não... tem pouca coisa de valor atualmente aqui no RS. Me preocupa a projeção exponencial... pq se se vai tão rápido por aí, me pergunto quando finaliza este trabalho invertido do sucesso. Pensa aí... e faz um favor, não me vem com grosseria, caso contrário alguém vai dizer pra vc o que vc tem mais que ele... e isto não é bom! É uma barbada desfazer do sentimento alheio, não?

Fundamento original...


Endre Ernő Friedmann, conhecido como Robert Capa, desembarca na Normandia em 1944. Ele clica e a imagem é reproduzida e adulterada, no alto, foto teoricamente original. Repare em linhas, de horizonte, de contorno de céu, de recuperações de luzes. Há muito de alteração que certamente fizeram parte de um etapa moderna do tratamento de imagem. 
         Jamais me atreveria a criticar um ícone fotográfico do fotojornalismo de guerra... em primeiro momento seria preciso se colocar no passado. Um passado com recursos mínimos para executar um papel que é totalmente dependente de tecnologia. É injusto pensar que o limite de um ofício esta justamente na tecnologia que hoje nos permite não apenas deitar e rolar em fotografia, mas também transmitir com a velocidade que um projétil não alcança. Se vc discorda disto é pq entende muito de física, mas também vai concordar que o projétil não tem o alcance da fotografia. Então entramos numa discussão elementar entre as razões que certamente, se tão simples fossem, jamais teríamos a existência ou justificativa para um conflito. 
O motivo do meu post é uma observação sobre as imagens, sobre os ofícios de profissionais, considerando a evolução das atividades. Nos tempos em que a fotografia era praticamente física mecânica/química, não se possuía os recursos de transmissão e nem correções de fácil manipulação. Horizontes eram corrigidos através de corte físico com réguas e lâminas de aço, hoje, um botão ou o mouse faz isto. Com este entendimento nós percebemos que o ofício do fotojornalista se evidencia por um ato corajoso, heróico! A vida de Endre foi justamente isto... cliques simples, sem cerimônia, até que se foi para virar página fotográfica. Quem faz certos feitos jamais morre, deixa de presenciar, mas existe sempre. É uma pena que as escolas de fotografia e fotojornalismo não compreendam isto como eu entendo. Fotografias antigas não devem ser manipuladas, fotografias não devem ser manipuladas se não forem por seus autores. Editor não é autor... só autor pode definir o uso de uma obra fotojornalística. E no meu entendimento, editor que pensa diferente pensa que jornalista, mas passou por cima de regras bem básicas do jornalismo. É a crime jornalístico, pq a verdade foi manipulada e sabe lá o novo entendimento que isto poderia trazer. Se uma linha do horizonte parece erro ou distração de um autor, poderia também significar passar um sentimento de guerra, de desorientação. Coisas que o estudo pode provar... e que tornam as redações preocupantes! Quem gosta de mudar uma fotografia é publicitário, não fotojornalista, funções importantes da mesma maneira, propósitos completamente diferentes. 

Velhos All Star e calças jeans...

         
             Mar de calmaria em Porto Alegre, abre a janela e sente o calor... foi assim o domingo, 31 de julho. Meu escritório é um lugar tranquilo, agora, e na calmaria é que encontro os melhores momentos para contagem das histórias. Muitas foram as transformações no meu ano... assim como todos os anos anteriores que desenharam mudanças. Ouvi muitas respostas negativas sobre meus pedidos... quer fossem de natureza garantida, mera suposição ou pura loteira. Muitos foram os pedidos atendidos, outros foram negados... mas aos 40 anos, exercendo a atividade que estou, seria de estranhar se tudo fosse sempre vento em popa. Já fiz uma porção de coisas... outro dia falei nisto. Me faltou quase um universo para experimentar, porque posso dizer que das minhas certezas sei muito, e uma delas é de que tenho dúvida de tudo. Não confio em respostas prontas, não me animo a confiar nas estradas anteriores percorridas por outros. Seria um tipo tolo de jornalista se não confiasse em meus instintos, degraus de uma escada com 40 anos! Não sou mais um menino... embora veja que muitos são os que erram e persistem nos erros, sem dar nenhuma importância as experiências. Mudou... muda sempre, mudará no futuro e quando não mais mudar assistirei as mudanças das pessoas. É inevitável...
No domingo, eu calcei meus velhos All Star pretos, surrados... uma de minhas calças jeans velhas, com pingos de tintas, oriundos dos trabalhos de produção no estúdio, coloquei a câmera no pescoço e subi na bicicleta. Sai pelas ruas de Porto Alegre, arremessando perguntas ao vento e tentando colocar frases em ordem, para que talvez se montasse um texto auto explicativo da vida. Eu não tenho mais medo da vida... Eu tinha, mas agora não tenho mais. E tenho medo é de não estar mais aproveitando o que der entre um trabalho e outro... se agora estou sozinho, tudo bem. Importante é que eu sinta o vento, escute os cliques e a pressão do meu dedo sobre o disparador da câmera. Eu tenho medo é de que tudo mude novamente sem que me seja questionado... motivo, esperança e momento. Penso muito... penso nas negativas que ouvi, mas penso muito nas positivas que me fizeram ganhar algum dia. Sou agora, uma realidade de vivências que experimentei. Eu gostaria de não pensar tanto, gostaria de ouvir apenas "sim", mas o "não" me constrói e é dele que faço os degraus para continuar subindo. Se meus tênis estão velhos, minhas calças também... penso que estou também! Não somos piores ou melhores que ninguém, e a confiança que tenho é feita de incertezas e possibilidades. Era pra ser, não era, amanhã talvez, outro dia, novo caminho... mas amanhã é certo que vou colocar novamente, meus tênis all star velhos, ao estilo Nando Reis, uma velha calça com respingos de tinta, pois é ela e não uma nova que me traz confiança para o cruzar o dia seguinte. A calça respingada e os tênis velhos não me deixam esquecer o que eu fiz ontem e antes disto... Até, fico no Diário do Andarilho, um diário de bordo deste frame fotojornalista. Nos vemos nas ruas...