Aflição é motivação fotográfica...

Audax 200 km da Sociedade Audax de Ciclismo, uma batalha individual pela superação. Foto: Roberto Furtado
      Tenho uma característica muito importante para a criatividade nos trabalhos fotográficos... esta aceleração da mente quando observa tudo é uma forma de gerar avaliações sobre os fatos. Logo sento em frente ao teclado e sindo grande necessidade de externar... foi inclusive um dia, assim, que falei para um conhecido autor sobre este "problema", que ele me disse: "És um escritor!" 
Eu fiquei pensando se todos os escritores são assim, pq eu não tenho obras publicadas, ainda, embora muitas páginas escritas. Tenho vivido um momento de tristeza, muito grande, no qual vi um caminho nascer aos poucos sem conseguir dar alguma solução. Estas questões pessoais incidem diretamente na vida de quem escreve... a situação impregna os pensamentos e por consequência os textos e as abordagens. Tentei ir resolvendo tudo dentro da minha cabeça com as coisas caídas pelo chão, mas percebi que não era tão simples quando juntei o primeiro objeto. E na medida que fui caminhando ao longo dos meses, fui encontrando alguns feixes de luz... e tudo isto conspira para soluções e para novas fotografias. A motivação fotográfica é uma situação que acontece de acordo com o estado de espírito, mas o curioso é que tanto a tristeza como a alegria acabam gerando esta motivações. Todas as situações que me levaram a subir mais um degrau foram encontradas sozinho, talvez com a influência de um olhar, frase, mas sempre com reflexões originais. Eu jamais envolvi alguém nesta batalha com a mente, justamente pq saberia que a inclusão de um pensamento não original complicaria ainda mais a minha caminhada. Quando vejo outros como eu... entendo! É difícil... e vejo muitas pessoas tomando decisões impacientes e equivocadas... a organização da mente é uma tarefa que leva tempo e verdadeira solidão. Colocar mais coisas dentro da mente é dobrar as coisas caídas pelo chão... e o tempo, não vai apenas aumentar, mas tornará a tarefa mais trabalhosa. Eu tenho estado aflito... e tenho tido motivação fotográfica como nunca. Eu vejo tudo em três dimensões, pq eu olharia o mundo de uma única perspectiva?

Companheira Pitangueira


        Há muitos anos escrevi isto... tal de "Companheira Pitangueira" e alguns gostaram, outros riram, outros apenas se surpreenderam. Acho que a vida é surpreender e ser surpreendido... eu disse alguma vezes que era difícil de ser surpreendido. Tenho vivido a espera de ser surpreendido... nunca me achei inteligente, mas sempre consegui atingir alguma satisfação pessoal por gerar conclusões próprias. Acho que poucas pessoas gostam ou se importam se as pessoas escrevem ou falam... Com aquela timidez que me fazia sentir em frente a uma multidão estando na presença de mais de 4 pessoas, jamais soube me expressar sendo eu mesmo. Ao tentar falar, parece que há duas consciências dentro de mim... uma tentando dizer o que preciso, a outra dizendo que não vou conseguir. Por fim, muitas vezes me sentindo e talvez até passando por tolo. Fato que encontrei na escrita, minha proteção... digo o que quero, no tempo que consigo, sem estar sendo cobrado por alguém. Há coisas que jamais superaremos... por mais que pensemos que podemos! Minha timidez jamais me deixará... é meu ônus, me trouxe o bônus da sensibilidade de observar a vida e suas senoídes. Superei, e não, a perda de pessoas próximas, quer fosse por afastamento inevitável ou dissincronia. A verdade é que acreditamos naquilo que tocamos ou sentimos, não naquilo que contaram... e foi aí, mais uma vez, que eu percebi que os adjetivos da minha vida pessoal se confundiam com os da minha vida profissional. Tudo que somos, seremos com a família, na carreira, nas atividades não profissionais. Tudo o que passamos, passará... nada é permanência, inclusive, pq somos passageiros. E dentro desta passagem, mudaremos, seremos algo novo a cada conjunto de pequenos ciclos. Os resistentes, da mudança externa ou interna, nadam insistentemente contra todas as correntes que aparecem pela frente. Até que, cansam... e então, se convencem de mudar por aceitação. Os que mudam com facilidade não carregam consigo a bagagem da resistência, que por um lado é bom, por outro nem tanto. Uma balança indica pesos e decisões, mas da vida, exata é somente a certeza de chegar e partir. Não haverá duas oportunidades iguais, tampouco duas vidas iguais... viva a sua maneira, com os seus moldes e tenha a grandeza de permitir que o próximo pense da mesma forma. 

Companheira Pitangueira

         Da janela do quarto, esperando meu amor voltar, vejo o começo dos primeiros pingos... um pé de vento e um céu cinzento anunciou a chuva. Incorpada pelo frio que sinto, intimida-me, e um cobertor é preciso tirar do armário. A chuva combinada com a angústia que sinto pela falta do amor, intensifica o frio. Através de um pequena fresta na janela sinto o aroma da terra molhada... perfume único e evidente da primeira chuva, quase um poema. Um galho da pitangueirinha cruza a frente da minha janela, e nele pousou um pássaro arrepiado pelo vento. Senti pena, supondo algum sofrimento... um solavanco maior, expulsa-o do galho, o levando a outros destinos determinados pelo tempo. Em frente a janela pensei em tantas coisas, na ausência do meu amor e na solidão, nos episódios felizes e infelizes da vida, no esforço que fazemos para chegar a velhice. A chuva aumentou, e meu amor nem ligou... desperdiçando meu sentimento, como água que escorre pelo ralo. Cansado da espera, embalado pelo ruído da chuva e acomodado no calor do cobertor, adormeci... um soninho tranquilizou-me das angustias e da espera. Quando acordei, a chuva havia cessado e fazia sol. Do vento e céu cinzento, a calmaria pós chuva de verão... sol intenso e céu azul. Da chuva, apenas sinais... gotículas sobre as pequeninas folhas da pitangueirinha em frente a minha janela.

                                                                                                                                       Roberto Furtado

Tive que aprender... a gente aprende!


        A diferença entre os profissionais não é apenas uma questão de talento... todo exercício se transforma em um adicional na bagagem do autor. Estar apto... aptidão! Talvez algumas pessoas entendam isto de uma forma diferente, devido a estes conceitos que criamos sobre como fazer, quem nos ensinou, quais influências tivemos e não podemos esquecer o tal talento. Acho prudente falar que empunhar uma máquina fotográfica não é um ato natural da evolução... acho pouco provável que alguém tenha nascido com vocação para ser operador de uma câmera, seja fotográfica ou filmadora. Contudo, há uma habilidade na linguagem que se traduz em fotográfica ou cinematográfica e que acaba sendo justamente este o tal talento que precisamos para empunhar a máquina e executar a tarefa de registrar. O enquadramento é um conceito que se gera dentro da cabeça do autor... ele sabe exatamente onde começa e termina o quadro, para qual lado ou com que velocidade deve buscar o alvo. Se é zoom in ou zoom out, todas estas linguagens são conceitos que se relacionam entre autor e observador... e no fim, o autor se molda ao objetivo, pq para observador, por uma razão muito simples de sensibilidade, deve estar tudo muito claro no decorrer de uma história contada. Quando eu era criança, comecei um exercício por conta... eu tinha desde de cedo, uma forte relação com a natureza. Era curiosidade tamanha que superava todo esforço que havia para achar os animais... eu caminhava quilômetros sozinho, com sol forte na cabeça, com único objetivo de encontrar um acontecimento. Não tinha a menor ideia de que aquilo seria, anos mais tarde, um esboço da minha personalidade profissional que pulsava de dentro pra fora. Hoje, com uma certa e tardia maturidade, percebo que formei em mim adjetivos para ser um documentarista. Esta estranha relação de fotografia, quer seja única, ou de sequência de fatos que nos direcionam ao entendimento do filme (video), descrevem esta linguagem que une a mente do observador ao autor. A construção desta mensagem ilustrativa, que pode ser inclusive sem sonoridade, transporta o observador a uma realidade que ele não conhecia, variando de acordo com o autor também, a flexibilidade de interpretações ofertadas a este observador. Esta linguagem é uma obra do intelecto mais habilidoso... é como uma mágica! A condução de uma história para garantir entendimento de algo... exista ou não subjetividade, este é o talento aprendido. O autor não sabe muitas vezes o que fazer com estas percepções, mas quando ele passa a compreender a importância e o mapeamento deste talento, inclui-se como uma ferramenta social indispensável. Tenho feito muitas observações com estas vivências do fotojornalismo, atividade pela qual me apaixonei e que me serve como exercício para outras experiências da linguagem ilustrada. Nós somos os desenhistas das histórias, sejam quais forem as atividades específicas da fotografia, estamos construindo reflexões para os observadores. A gente aprende... e a gente aprende a responsabilidade disto. 

O fotojornalismo deve mostrar a superação...

Rodrigo Schu, na Hand Bike, escoltado pelo carro de apoio e um ciclista que o acompanhava.
Foto: Roberto Furtado / Sociedade Audax de Ciclismo
            Desde que entrei para o jornalismo que me pergunto sobre a ênfase e abordagem dos assuntos... Há, em todo assunto, uma forma construtiva de abordar os fatos. A crítica é uma parte importante do jornalismo, pois ela gera a reflexão na cabeça do leitor... e é com isto que a ciência informativa busca a evolução de sua sociedade. Seria um ato pequeno demais apostar que o jornalismo tem finalidade exclusiva de informar sem nenhum propósito... ou buscar apenas a visibilidade do veículo. É um pensamento inútil... embora saibamos que a maior parte dos profissionais e veículos tenham este formato. E verdade é que o jornalista é manipulado pelo veículo, quando deveria ser ao contrário... mas o veículo manipula o profissional sabendo que ele depende do emprego. Por isto defendo os jornalistas que trabalham nos veículos... e não os veículos. Engraçado ter que abordar este tipo de assunto para justificar minha forma de trabalhar, quando vejo esta, como forma tradicional e correta do jornalismo. Preocupante é pensar na realidade do jornalismo... e aí vai explicar pro povo que jornalista não tem culpa do que escreve, quando o veículo manipula a direção e construção das abordagens aos interesses de um patrocinador... enfim, um grande problema. 
E pensando nesta questão vejo que assuntos de elementar relevância se perdem no espaço entre o tempo e a viabilidade. Quando os feitos não comuns, como de Rodrigo Schu, ciclista de uma hand bike, deveriam justamente aparecer em todo tipo de mídia. Estas são situações que lamento... e talvez Rodrigo nem tenha pensado como é importante o fato de ele mesmo superar-se. Quantas são as pessoas que poderiam conhecer sua história e com ela mudar de vida. E se não é este o objetivo maior do ser humano, enfrentar todo tipo de obstáculo, não saberia dizer qual é... Por isto, já que faço o que posso, destaco este, meu novo ídolo... Rodrigo, piloto de uma handbike, dono de seu próprio destino, enfrentando um desafio com 90 km junto de uma prova onde apenas ele portava tal tipo de ciclo de tração humana. "V" de vitória pra você Rodrigo... por nos motivar a enfrentar nossos medos, derrubando conforto, quem sabe uma mudança de vida, a evolução em nossas mãos!

O conflito

Atenção, esta imagem foi realizada em um exercício promovido pelas forças brasileiras. Os feridos são "atores" em simulação de conflito. Trata-se de um treinamento em solo brasileiro, onde ninguém foi verdadeiramente ferido. 
Sempre vejo os filmes, documentários e relatos de guerra ou conflitos. Há uma infinidade de produções que descrevem as histórias de um povo contra outro povo. Quanto mais eu vejo, mas reflito em questões como as perdas, que não são apenas de um soldado. As perdas se estendem a dignidade humana, ao desencontro de soluções diversas, a perda e dor de famílias. Me pergunto de onde tira energia um governante para enviar um semelhante para algum lugar com o único propósito de matar ou morrer. Neste mês das crianças, lembro-vos quantas crianças morreram nas estúpidas guerras. As que sobreviveram, morreram por dentro, então... e evidentemente, eu e vc podemos fazer muito pouco para que isto não aconteça em algum lugar. Entendo pq muita gente se aliena e desiste de pensar... meu plano de ser um fotógrafo de paz incide sobre o conflito, mas ainda não estou pronto. Devo dizer que isto é uma longa caminhada que exige maturidade até para não morrer por dentro. Não espero que alguém responda esta publicação, pq entendo, pq é um assunto desinteressante para muitos, pq há coisas belas para pensar na vida. Ninguém pode levar uma mensagem de paz contra o terrorismo... pq onde há um bloqueio de uma segunda opção, torna-se o vivente uma máquina que só pára com o fim. Me pergunto que cultura é esta que permite a salvação por perdas... a evolução, espiritual, se dá nas escolhas que sejam benéficas ao mundo. Acho que muitas pessoas devem achar estranho o fato de eu, um repórter fotográfico, escrever tanto... tentar entender! A verdade é que eu não entendo um repórter, seja cinegra ou fotógrafo, não escrever nem mesmo uma legenda.