O tempo que se ganha...


            A minha estrada vai "escolhendo" meus temas... e como sou um sonhador, sou também um vivente que possui na maior característica uma coleção de emoções à flor da pele. Sinais e acontecimentos promovem a efervescência dos sentimentos de quem vive de uma forma sonhadora. Não sei se é certo ou errado, ou se apenas da natureza da pessoa que neste molde foi concebido. E neste caso, não há culpa, tampouco intenção... quem vive, apenas vive, e se algum mal faz, apenas à ele mesmo. Pensar é também uma forma de evoluir, mas causa, evidentemente, alguns tropeços e recomeços. Nem toda a teoria começa e vai até o fim sem ter sua trajetória corrigida. No auge de algumas vivências, posso dizer que me sinto maduro por muitas experiências, felizes e infelizes, mas como eu digo, sempre dá certo! Eu reencontrei um olhar que há muito tempo não via, na primeira vez eu não sabia o que fazer com ele... na segunda vez, quase trinta anos depois, fiquei tão nervoso que conduzi tudo tão mal como da primeira vez. Parece um reviver de trajetória mal traçada... e dizem que a gente não repete erros, até porquê nada se vive duas vezes. A resultante sempre pode ser a mesma, mas a verdade é que há muitos caminhos até a resposta certa. 
Eu aprendi a não gostar das mensagens dos novos tempos, os tais sms, torpedos, chats, etc... estes veículos transportadores das minhas emoções não correspondem ao que sou, quero e pareço ter dito. As mensagens não levam meu olhar, nem minha expressão, tampouco meu tom de voz. Eu não sei por onde andei, nem por onde tu andou, mas eu vejo que estamos aqui no mesmo lugar. Acredite, ou não, estamos exatamente no lugar que deveríamos... Eu não sou religioso, mas tenho minhas crenças que vertem do que sinto. Entendo que o universo conspira, que os olhares dizem muito mais do que palavras. E sim, eu sou inquieto... Eu não quero ditar o tempo que me é atribuído, não quero formatar minhas palavras, menos ainda programar o dia seguinte, quero apenas viver um dia de cada vez. Eu aprendi que o tempo é algo bom para perder... com alguém, em algum lugar, e foi aí que vc me disse: "o tempo se ganha" com aqueles ou com algo que se gosta! Ali, mais uns pontinhos pra uma conquista de amizade... agora sou eu que digo que não "perco" tempo com quem não me interessa, eu almejo ganhar o tempo apenas com quem vale cada sorriso e minuto. Eu quero ganhar este tempo com vc... e só a dona desta frase sabe sua propriedade. Eu vivo o mistério, o erro, a reflexão, a simplicidade da brisa, o orvalho sobre folhas ao amanhecer, eu vivo de sonhos e do trabalho que tracei, também curto aquele sorriso que ilumina um lugar. A espera de uma oportunidade... tão simples, um café ou que fosse banco de pracinha, cada um em seu universo e complexidade. Eu não devia ter deixado para uma próxima oportunidade a contagem da história, porque acredito que ela teria feito toda diferença no momento anterior... como uma placa que indica a direção em uma encruzilhada. O interessante é que só sabemos a direção correta de algumas experiências depois de já termos passado do ponto anterior... Aonde isto vai dar, tal de destino, ninguém sabe, mas como diz a música, "a dúvida é o preço da pureza e, é inútil ter certeza!" (Engenheiros do Havaí). Uma resposta para uma pergunta que ainda não foi feita, apenas um posso perguntar... "diz que pode perguntar, mas diz que não garante responder!", já sendo esta, uma indicação de interesse, todavia, mal interpretada, de fato, assim, com o decorrer de uma história específica. E sim, mudam as pessoas, mudam-se os fatos, muda-se a resultante. É o que nos faz errantes em nossas trajetórias, do acaso, talvez destino, não sei, acho que é inútil ter certeza... já sobre o tempo, sim, você estava certa, dele, ganhamos!

Maturidade de um fotojornalista


       Tenho pensando muito em algumas situações da insegurança mundial... Aqui no Brasil, estamos vivendo um caos da segurança por problemas que não consigo definir onde começam e terminam... lá fora, os problemas são tão antigos e estão nas mãos de irredutíveis. Então assim, rapidamente eu tento explicar algo sem explicar nada, porquê é isto que me parece todo este monte de conflitos e desequilíbrios da sociedade, seja local ou mundial. Estamos vivendo um caos pq não conseguimos coexistir...
E se por um lado eu penso nisto, por outro vejo tanta gente querendo resolver as coisas, dispostas, arriscando-se para tentar endireitar o que parece impossível. Ano passado, tive oportunidade de conviver com alguns militares, tenho certeza que especiais como seres humanos, e pude observar que o foco é a paz. Se aprende, se treina, se fala em armas, guerras, problemas... tudo com intenção de dissolver o que há de ruim, trazer quem sabe, a volta da estabilidade e paz. Estou prestes a fazer 41 anos... me vejo jovem ainda, mas é nítida a minha forma de encarar o mundo. Eu não sou tão sonhador como antes no que diz respeito a esperança de paz. Eu cresci ouvindo histórias na televisão... meus pais falando no assunto que até crianças morriam no Irã. Sabe lá quando era aquilo... imagino que por volta de 1982... e portanto eu tinha seis anos de idade, mas me lembro. Quando era criança eu tinha certeza de que seria bombeiro... acho que eu pensava que era bonito ajudar as pessoas, usar roupa vermelha, caminhão com sirene. Vai entender cabeça de criança, que cria e se ilude com as faces belas de uma pauta. Cedo fiz judô... e cedo abandonei aquilo, não devo ter praticado mais do que 6 anos do esporte. Era claro para mim, que a menor violência, significava receio, e por isto, anseio de afastamento. Eu jamais suportei a ideia de servir... nem sei de onde tirei isto, e me arrependo amargamente. Eu nem sabia o que seria... ou o que faria da minha vida. Eu só pensava em ser alguma coisa legal... mas desisti bem cedo da ideia de ser veterinário, cursei algumas disciplinas, depois cursei bastante engenharia mecânica, a qual abandonei também posteriormente. Por muito tempo segui em uma vazio vocacional, trabalhando como representante e vendedor de bombas dágua, de tipos variados, aplicações com derivações do entretenimento. Eu era bom naquilo... o suficiente, mas pense em um vazio vocacional. E então por algum motivo, entrei em uma estrada da fotografia que me levou ao jornalismo. E assim nasceu em mim um fotojornalista... Aprendi o ofício, mas muito mais que isto, o lance bombava no meu sangue. Inquietude... "ser de uma alma inquieta", sempre disse minha mãe, se referindo a mim. Quando dava confusão era nesta direção que eu corria... quer fosse incêndio, manifestação, pancadaria, acidentes, lá eu sentia que deveria estar. Era, ou melhor, é, maior que eu... embora esteja, agora, calmo, depois de fazer o treinamento do CCOPAB, no Rio de Janeiro. Experimentar a situação de simulação dos riscos, combiná-los aos infortúnio da mão armada nas ruas da cidade natal, assistir documentários e filmes sobre o que se busca, torna-nos, covardes. O que vale mais? Arriscar-se ou deixar o sangue amornar? Antes, preferia que ele fervesse... agora, talvez seguindo na direção da maturidade, pareço abrir mão, muito embora tenha certeza de que estoure o que for na minha frente e, não perderei a foto. Maturidade profissional não combina com maturidade pessoal... uma vai te colocar no caminho da outra, distanciando-o de uma delas. Prefiro pensar que aqui, embaixo de um semblante paciencioso, mora sim um fotojornalista de zona de conflito. Não sei se vou, ou se quero ir adiante, um dia com isto, mas há sim... sinto-me cansado de ver que fatos e fotos não mudam as realidades, e afinal, não seria este o motivo existencial do fotojornalismo? Se não for, o que é motivo? Bem... acho que há muitos lugares para um fotojornalista que perdeu a esperança de que o trabalho motivasse as mudanças, mas se isto é o melhor como caminho, não sei. Prefiro pensar que me capacitei para algo que pode me encerrar a trajetória, e que no meu egoísmo poderia apenas curtir o restante da minha vida combinando vida pessoal e vida profissional serena. Eu não quero me precipitar, mas talvez, eu tenha chegado no momento e acabei de me limitar como profissional. Não quero fotografar pessoas inanimadas, menos ainda dor. E o que me faz egoísta, e o que me faz presente na veracidade? Posso mudar alguma coisa com minha existência?
Estas foram perguntas que saíram da minha cabeça após o treinamento e mudança de vida pessoal... Mesmo que pareça perdido, garanto que estou muito mais encontrando dentro de mim. Eu devo muito aos militares, meus instrutores, que se tornaram meus amigos, também aos meus colegas do jornalismo. E só o que penso é que gostaria de ter certeza que todos nós estamos seguros, o que é uma ilusão, num mundo como se apresenta a Terra em 2017. Acho que não sou daqui...

Uma direção... pra se envolver e envolver o mundo!

Barra do rio Tramandaí, 2015.
          É engraçado como tudo se transforma tão ligeiro... Me pego pensando no presente enriquecido de pessoas e valores dos quais eu não tinha oportunidade de conviver e exercitar. Esta forma de ver o mundo, suave, sem exigir nada de ninguém, nos deixa com um olhar tranquilo sobre a mudanças, quer sejam pequenas ou grandes. Me pergunto o que motivou este "gatilho" no meu cérebro... como foi isto? Eu sinto que meus medos se diluíram... eu não tenho mais medo de ficar sozinho, nem do que virá, tampouco de perder algo pelo caminho. A gente começa a perceber que só ganha, mesmo quando perde... cada mudança, seja perda ou ganho, traz consigo, uma nova oportunidade de experimentar uma situação que antes era impensada. Avaliei meus pensamentos e vi que num período bem pequeno, cerca de 3 ou 4 meses, subi alguns importantes degraus sobre o controle de mim mesmo. Eu consigo escolher o que é melhor pra mim... mesmo sendo questionado emocionalmente. A dúvida que tinha sobre isto pude me certificar... que o momento não me chantageie, não me cobre, não me force, não crie situações onde eu precise escolher, pois irei. E escolherei o que é melhor pra mim... é uma habilidade. E você pode escolher esta direção, e por ela se envolver com o mundo. Com estas decisões você muda a trajetória da sua vida, mas contagia o mundo com novos comportamentos. Nós podemos mudar o mundo, basta que muitos de nós, sejamos persistentes e exemplares. Não precisamos ser perfeitos, precisamos que nossos exemplos de ação sejam vistos. Quanto pesa uma boa ação... uma atitude bonita pode motivar muitas pessoas. Tenha certeza disto... e o melhor de tudo, vc faz pra vc mesmo, não para os outros. Você se sente muito bem... 

Um causo da escolha
            
          Quando fui adolescente passei por uma situação de escolhas e observação. Uma menina pouco mais nova que eu, se desesperava no mar após ter percebido que as correntes a levavam em direção ao mar aberto. Como já era um bodyboarder com alguma experiência (comecei cedo, pergunte para minha mãe se duvidar kkk), a primeira coisa que me passou na cabeça foi pensar o que aquela "guria tava fazendo ali"... Ela estava sem pés de pato, agarrada ao bodyboard mesmo que uma tábua pregada sobre a outra e batia os pés de forma inútil. Eu não recomendo que ninguém entre no mar de bodyboard sem pés de pato... nunca! Eu cheguei a fazer isto algumas vezes, mas com aquelas luvas de que potencializam a remada... e eu remava forte mesmo, tinha vigor! Mesmo assim, não se comparava aos pés de pato. Eu usava as luvas eventualmente até que meus pés se cicatrizassem das feridas feitas pelos pés de pato. Bom, mas voltando a menina... ela já estava aos prantos. Eu tentei acalmar ela da maneira que podia. Me aproximei devagar e comecei a conversar com ela... Meu pai, certa vez, disse: "sempre toma cuidado quando alguém estiver se afogando, pois quem se afoga pode ficar desesperado e se agarrar em ti pra tentar se salvar, te afogando junto!"
Tentando acalmar a garota, fui conversando e me lembro de ter dito para ela... "eu não vou te deixar aqui, estou contigo. Te acalma, e presta atenção no que vou te dizer. Pára de gastar energia e faz o que vou fazer... me ajuda a nadar na direção que eu vou te puxar!" 
Ambos estavam sobre pranchas, não nos afogaríamos, mas estávamos sendo levados para fora da zona de arrebentação. Era uma saída dágua bem ágil... com bastante força dágua. Eu vi que era como nadar contra a correnteza de um rio naquele lugar. Agarrei a cordinha do leash dela, bem junto da prancha e bati os pés com força, ela ajudava, eu guiava para a lateral da corrente, em direção favorável. Logo escapamos da saída dágua... e nos aproximamos de uma arrebentação. Perguntei para ela se ela sabia pegar a onda e ela respondeu que sim. Tranquilizei ela dizendo que faria ela pegar uma onda pra sair e que estaria logo atrás dela cuidando. Ela pegou a onda e foi indo em direção a praia e no meio do caminho dois salva-vidas a encontraram. Ela saiu na praia com eles... e foi meio que um drama, afinal, foi tenso. Quando eu saí na praia um dos salva-vidas veio me agradecer e depois veio a menina. Eu sorri, e fui embora, eu nunca esqueci. Possivelmente ela teria se salvado de qualquer jeito... mas acho que tornei menos traumática a experiência. 

Transcendente... pessoal, profissional, espiritual!

Feirinha de orgânicos em Porto Alegre, @fotojornalistabetoandarilho
          De tanto focar no objetivo de crescer é que se consegue alcançar estes momentos que nos elevam para um plano um pouco diferente do "normal". A gente quer mais... quer seguir, alcançar galhos mais altos, ter folego para ficar submerso no momento certo, por mais tempo, e melhor. Este desejo de "alcançar a prateleira" mais alta é da natureza apenas de alguns e na medida em que entendemos como e o que cada um procura, percebemos que isto muda para algumas versões onde o sucesso econômico é o foco. Meu conceito de sucesso é totalmente avesso do que me foi ensinado... e claro que não me conformei nunca com o conceito que tentaram me empurrar. Até que um dia eu aprendi que sucesso não era quando eu havia ganhado, mas sim o quanto me senti realizado. Para muitos, o sucesso é uma conta com alto poder aquisitivo... para mim, sucesso é a aceitação do que me tornei. Como fotojornalista, me tornei incontestável... isto é sucesso. Quando o solicitante sabe que basta me chamar para ter o resultado desejado... ou quando alguém usa vc como referência apontando um trabalho específico. Eu não me preocupo mais tanto com o que os outros estão pensando sobre o meu trabalho... eu satisfaço por pensar que esta ótimo o trabalho que faço, que sou capaz e que me mantenho em uma evolução.
O que acho curioso nesta estrada profissional é o fato das coisas se tornarem simples para mim... de saber como fazer, o que esperar, o que não esperar e como lidar com imprevistos. É ter os pés no chão, estar pronto para tudo! E assim, entrou este mesmo conceito na minha vida pessoal... eu senti uma serenidade profissional, eu vejo tudo em movimento e consigo imaginar o congelar da fração temporal. É sentir-se com um super poder de parar o tempo ou de manipular a trajetória ao ângulo que eu preciso. É dominar a si mesmo... eu nunca me senti tão cético, ateu, e ao mesmo tempo tão espiritual. Eu criei meus próprios deuses, destruí meus fantasmas, idealizei meus heróis e criei perspectivas flexíveis sobre o incontrolável. É como ter desvio padrão para equações... onde a resultante pode não ser a ideal, mas eu já esperava ser surpreendido. Acho que transcender profissionalmente e pessoalmente é criar uma forma de ver o mundo onde quaisquer que seja o resultado será sempre com consentimento do teu equilíbrio.