Bloqueio

Arroio Dilúvio, entardecer de inverno. Foto: Roberto Furtado
Estou sentindo o peso do impedimento... é como se minhas mãos estivessem atadas. Como seu estivesse impedido de pensar... mas apenas sobre algumas coisas. Já escrevi coisas que criaram o impacto necessário... já promovi o estalo em algumas pessoas. Eu escrevi milhares de críticas, contos, histórias, textos variados, quer fossem lúdicos ou jornalísticos. Eu perdi as contas... foram milhares de páginas. Apenas no Bikes do Andarilho, que não era nem o primeiro, nem meu blog mais ativo do momento, foram mais de 1700 postagens. Algumas palavras, foram republicadas em diversos canais, na Revista Bicicleta, em linhas do tempo de amigos. Meu livro... uma centena de páginas, me pego mais uma vez pensando se realmente vou publicá-lo. O que fazer quando parece que a energia esta se esgotando para algumas coisas... será uma mudança? Já escrevi tanto... será que isto era não renovável e eu não sabia? Será que as coisas, as últimas, foram bons textos, boas abordagens? Será? Eu penso tanto, porque os pensamentos não me vertem em forma de linhas? Tô realmente me sentindo estranho... é coisa deste último semestre. Numa conversa com a minha mãe... percebi que não sou mais o mesmo. Muito tranquilo... acho que aquele que muitos conheceram, talvez nem exista mais. Eu penso nisto... que mudança! Havia tanta ansiedade, tanta vontade de ver e saber... sobre coisas incontroláveis, sobre as pessoas. Agora, paz! E com paz veio silêncio, e do silêncio veio a calmaria... e com calmaria, não há mais ondas que viram frases. O que será que mudou? O que me traz este bloqueio? Em outro momento, pensaria desespero, agora, paz, bloqueio! Ao que parece, turbulência mental pode virar alguma habilidade com palavras... mas agora, paz!

A distância... balança dos atos!

O Guaíba e o entardecer de Porto Alegre. A distância é um "divisor de águas". Foto e devaneio: Roberto Furtado
              Algum tempo atrás vivi um desejo de ir embora do país... era uma opção de mudança frente a tudo que eu via por aqui e que não me agradava. Então, havia uma balança, onde tudo era colocado do lado correspondente, até que a decisão era bastante segura. Tempo depois, algumas coisas caíram da balança... e eu, percebi que as escolhas de um momento não responderiam pelas escolhas de um momento diferente. O conteúdo de cada um dos lados da balança do equilíbrio, muda e com o conteúdo, mudam as opções. Algum tempo atrás, talvez, se eu tivesse 20, 25, 30 anos, talvez tivesse ido com mais segurança, porque sei que o conteúdo da balança é menos volumoso e detalhado, talvez menos importante aos olhos do jovem. A verdade é que os passos de uma vida, agregam sobre ela, novas informações, novos componentes, novos sonhos, novos conceitos, novos sentimentos e comodismos. Segurança é uma palavra importante neste assunto... um jovem de 20 anos, não se preocupa em adoecer longe de casa, tampouco esquenta a cabeça com a velhice, mas um homem de 40 anos se preocupa com adversidades da saúde e com a segurança da velhice. Ao fim, certo é o jovem, certo homem de 40, certo quem pensa em si mesmo e na materialização dos desejos. Sonhar é preciso, mas colocar em prática... muito mais!
Balancei novamente, mais uma oportunidade de ir... seria muito bom viver experimentar uma nova versão da minha própria vida em um lugar onde aparentemente as coisas funcionam melhor que aqui. O que carrego na balança? Sonhos, de ambos os lados, alguns, com pesos diferentes... somados, correspondem ao meu interior, onde só o que importa sou eu mesmo, mas de uma forma importante. A minha felicidade é importante para fundir ela a felicidade daqueles que amo... me parece muito claro isto. Devemos manter a felicidade para sermos... e sendo, seremos "encaixados" na vida das pessoas que nos rodeiam. As pessoas precisam de nós... nós, delas! Se "a felicidade só é verdadeira quando compartilhada", talvez seja uma prerrogativa, talvez tenha algumas observações e "cláusulas" sobre como isto pode ser verdade. Falar ao whatsapp ou ao messenger em tempo real parece uma mudança muito boa para quem quer matar a saudade, mas a não posso deixar de pensar no abraço, toque de mão ou beijo como algo exclusivo e insuperável. O toque, físico, é indispensável para mim. Ir embora tem prazo de validade, quem é como eu... ou leva consigo as pessoas que ama ou jamais se muda para longe. Talvez, devesse eu, experimentar a experiência de morar longe no máximo 500 km, pois assim, experimentarei em distância segura. Ir para 8.000 km não me parece prudente a esta embarcação... e eu, como capitão de mim mesmo, devo desviar dos obstáculos flutuantes, mas tão importante quanto, será objetivas os portos seguros. Ser acometido de mudanças inevitáveis quando estiver longe, me parece, algum tipo de imprudência, já que tenho ciência dos fatos. Não conhecer os mesmos, ou não ter o peso destes, como os jovens se encontram, nos permite escolher errado, arriscar! Conhecer as regras do jogo e ainda assim arriscar... me parece ser para desesperados ou até para embarcações livres. Desta forma, depois de uma noite longa de reflexões, mantenho adiado e devidamente pesado um sonho que não pode ser real. A balança dos atos é uma boa forma de decidir sozinho sobre a direção, velocidade e momento da embarcação da vida.

obs: eu queria escrever bem mais sobre isto, mas por hora é o que consigo. 

Correr... metamorfoseando, outra vez!

Imagem com um Samsung J7, CETE, Porto Alegre, RS. foto: Roberto Furtado
       Tive um estalo... um dia pensei, podia correr! Fazia tempo que não corria... tive até uns ensaios "correrinos" cerca de uns 8 anos atrás, mas poucas vezes. Também já corri muito com o trabalho de fotojornalista... com quase 10 kg nas costas, mas a distância raramente superava uns 300m. É preciso bem mais que isto para começar a mudar a resistência e o corpo. Ainda que repórter de rua, freelancer, precise correr com peso... faz errado, porque raramente possui uma rotina saudável, e aí corre quando precisa pra pegar a pauta. Então... 
Um dia, assisti pela 20ª oportunidade ao filme de Forrest Gump, e como passei por uma grande transformação ano passado, achei que era hora de colocar em prática. Prometi para mim mesmo que em 2017 seria um ano de mudanças drásticas na minha saúde... iria correr, caminhar mais, quem sabe me empenhar mais para trips de bicicleta. E foi assim que tudo se tornou nova realidade... comecei a pegar onda de novo, continuei pedalando pouco, mas frequentemente, comecei a caminhar, fazer trilhas a pé, e caminhada seguida de corrida apareceu. Recomecei caminhando... fiz uns 10 km de caminhada rapidinha. Perna eu tenho... eu não tenho é fôlego, ou melhor, não tinha. Hoje, estou perto de completar um mês de corrida... quase! Corro ou caminho, de acordo com o tempo, hora do dia e disposição que tenho. Outro dia corro de 4 a 8 km, dia sim, dia não, se tenho disposição, corro todos os dias, como aconteceu por uns 7 dias seguidos. Já corri 10 km... já corri 6 e caminhei mais 6, faço alternâncias de velocidade quando faço voltas na pista do CETE. Vou me testando... hoje, fiz o mesmo trajeto do meu primeiro dia de corrida. No primeiro dia, devo ter corrido apenas uns 3 km de 10 km totais. Hoje, devo ter corrido uns 7 km num ritmo bem melhor... os últimos 5 km senti que o fôlego apareceu. E recupero rápido... mas tudo isto não tem a menor importância. Se é bom, se foi rápido, se vou ficar correndo 3 vezes por semana... tudo isto é irrelevante, pois pra mim, relevante mesmo é saber que a gente consegue. Aos 41 anos, voltei a correr... voltei a pegar onda, e estou correndo justamente para ter fôlego para pegar onda! Moro longe do litoral... e não posso ir muito para a praia, mas quando eu for novamente, vou ficar pegando onda bem mais horas que antes. Estou em uma metamorfose... somos, ambulantes, andarilhos, não podemos ficar parados. Conta a sensação de liberdade... a sede de libertação, de conquista! Se rejuvenesci, foi porque acreditei em mim mesmo... vou pegar onda e correr, nada me segura mais! Outra vez, sou dono de mim mesmo, igual na juventude, outra vez! 

Fotojornalismo 50 mm

Vista de Porto Alegre através da ponte da BR-448, rodovia do Parque. Fotojornalista: Roberto Furtado
           Acho estranho quando penso que o fotojornalismo tem sido realizado até com celular... no entanto, acho mais estranho ainda ver jornal impresso, principalmente em folhas de papel de qualidade tão ruim. E qualidade ruim impede qualidade fotográfica... que por sua vez, explica um motivo de existir fotojornalismo com celular. Quase irônico... se não caísse na vala da tragédia. Depois, um atira a culpa para o outro... e por fim, o patrocinador não quer gastar em anuncio em jornal com papel tão ruim. Se os problemas do jornalismo permanecem e nada muda, para mim fica claro que o jornalismo vai enxugar, depois se transformar, até que talvez não se pareça mais com o que é. Tudo muda... inclusive a informação. Não vai dar tempo nem de aposentar alguns... a velocidade, de cada momento, neste caso, não depende de vc! O mundo dita as regras... só que, eu, um fotojornalista perdido no espaço temporal, também me adaptei. Jornalismo... faço, muito pouco! Corporativo, quase que totalmente, responde por minha renda. Eu não tenho motivo pra pensar diferente... a poesia de um ofício é a essência que ele injeta na história! Como o ofício foi contado... começou, tudo, com muita simplicidade. Não eram câmera digitais, poucos frames, em PB, lente fixa, cálculo de cabeça, etc. Gosto de pensar que posso voltar algumas vezes no tempo, com fragmentos da limitação que nossos colegas do passado possuíam. Se posso usar uma digital tão versátil por escolha... posso sim fazer alguns trabalhos abrindo mão de algumas versatilidades. Por isto... fiz, e de vez em quando faço, fotografo com objetiva 50 mm, fixa. Uso e abuso da condição que há, ou não, faço simplesmente o frame mais singular que pode haver, como a imagem desta postagem. No fim... vc percebe que tanto faz se fizeram com celular, se fizeram de lente fixa, se vão imprimir em folhas de papel da pior qualidade. Importa o olhar, a decisão... a forma como o autor se conecta ao mundo. Eu já fiz fotos em 50 mm, já vendi fotos assim... tanto faz, tanto fez, a notícia chegou da mesma forma. Os celulares... bem, os celulares, tiram nosso trabalho pela mediocridade da história, assim como fotógrafos aéreos perderam seus jobs para os drones, ou então, mudam tudo, ou tudo muda, como num piscar de olhos, que se parece como uma câmera disparando. Câmera disparando é uma coisa que não tinha refletido ainda... parece até, que algo vai sair através da objetiva. Esta na hora de consertar isto... câmeras não disparam, câmeras capturam! Até eu, trago comigo vícios de um tempo passado... mas é hora de mudar. Corrigir, melhorar, tudo isto... compreende um jornalismo que precisa amadurecer, de outra forma, padecerá! Enquanto isto... brinco, de 50 mm, mais uma vez. 

Pra dominar... razão!

Mar do Bojuru, meu amigo de infância, meu irmão, Rodrigo, não lembro ano. Foto: Roberto Furtado

            Procurando por um trecho específico do livro: "Cem dias entre céu e mar", me deparei com uma reflexão de Amyr Klink... Gosto do que escreve o navegador, na verdade, considero-o um sonhador com grande habilidade em colocar em prática os sonhos. Como ele mesmo disse uma vez:

“Um dia é preciso parar de sonhar e, de algum modo, partir.” 

“Dias inteiros de calmaria, noites de ardentia, dedos no leme e olhos no horizonte, descobri a alegria de transformar distâncias em tempo.
Um tempo em que aprendi a entender as coisas do mar, a conversar com as grandes ondas e não discutir com o mal tempo.
A transformar o medo em respeito, o respeito em confiança.
Descobri como é bom chegar quando se tem paciência.
E para se chegar onde quer que seja, aprendi que não é preciso dominar a força, mas a razão.
É preciso antes de mais nada querer.”

A primeira frase, uma boa e simples forma de objetivar e planificar os desejos por aventura. Alguns de nós, nasceram realmente para sonhar, alguns destes, para colocar em prática certas aventuras. Para muitos, a aventura é fazer dinheiro, talvez adicionado de sucesso, talvez não nesta ordem. Para poucos, ficou claro que o mundo não vai sair do lugar, mas nós vamos passar por ele e, nada e nenhum bem material seguirá conosco. A única grande experiência que podemos deixar aqui é o ser humano que nos transformamos com o passar do tempo, tal, pode ser brilhante, em toda simplicidade. Enriquecer o mundo de novos olhares, de saberes, de amor, me parece uma forma absolutamente desprendida de construir os sentimentos. Fazer amigos... uma garantia de ser lembrado, mas mais importante que isto, uma garantia de manter vivo aquilo que você foi um dia. Já pensou que sensacional pensar que da tua partida em diante o mundo inicia uma caminhada nova, onde a esperança e o horizonte passam a fazer sentido. Eis uma forma de se manter eterno, de ser rico! Desisti há tempos de ter números... talvez fosse um erro que insiste em dominar o homem. Alguns, aprendem cedo, outros, tardiamente. Há aqueles que jamais aprendem... tornam-se velhos avarentos, incapazes de sentar em uma cadeira de frente para o mar para simplesmente saborear o vento. Pensar que somos grandes é um ato de rebeldia, sem lucidez, onde a modéstia se foi, e pelos motivos que enterra o próprio em hábitos estranhamente infundados. Se me pego pensando no meu maior temor, lembro dele... medo de solidão, sempre tive! Se receio vencê-lo, não... já estive em solidão em momentos de dor, de ausência de luz, sob sol forte na cabeça e com sede. Já senti fome, dois dias sem comer, preso num lugarejo pelo mau tempo, não me fez de vítima, nem me roubou a vida, talvez apenas me assustasse com a novidade. Sofri de amor... da perda, pensei que jamais iria superar. Tive poucas vezes crise de enxaqueca... também tive febre acima dos 40, me arrebentei todo quando caí da árvore quando criança. Em toda oportunidade, superei... superamos! Eu, você, tudo... o tempo, o vento, o medo! Não tenho mais... pode vir! Se sofro ou sofri, aprendo o valor do sacrifício e da sabedoria de como observar as situações que enfrento, de fora, de dentro, de mim mesmo. Quem não pensa, não mergulha no mundo, dele não terá as maiores riquezas... ditas experiências, carga do saber. Não há livro que ensine, nem professor que transfira tal oportunidade de vivenciar. É preciso viver... arrisque. Fui prancheiro, bodyboarder ainda sou... quando entro no mar mordo a faca, não tenho medo dágua. É a tal forma de ver o mundo da segunda frase que destaquei aqui, de Amyr. Se passa o tempo e a força diminui, então somente a forma como é feito o processo garante a execução. Não dominar a força, mas sim a razão... 

O último dia...

Sul Bike Race, 2017. Fotojornalista: Roberto Furtado / Revista Bicicleta
           Pensamento sobre algo... muitos dias sobre a mesma reflexão. Aproveitar a vida... o que fazer dela? Cada um usa seus instintos para usar o tempo que recebe. A mágica, é viver... existir, com saúde, é um dom, um presente, uma oportunidade. Ir é o normal... algum sinal de que a mágica acabou. A mágica tem prazo... acaba sempre com a velhice, algumas vezes precocemente, aí não é normal... deu azar! Talvez, talvez não... como dizer que viveu pouco um jovem de 30 anos que saboreou cada dia como se fosse o último. Em relação a outros que jamais aproveitaram verdadeiramente e se foram aos 90 anos. Aproveitar é relativo... diversão após dia de trabalho, mesa com amigos, bate papo ao telefone, sexo com a melhor amiga(o), carinho no rosto de mãe, pai, irmão, amiga, cachorrinho! Sabe o que importa... você sabe! Talvez não coloque em prática, pensando que a hora de conseguir vai chegar, mas não adia não. Os dias correm rápido e eu já estou com 41 anos... eu nem lembro de todos os dias, talvez pq não tenha feito algo útil com eles. Eu amei, disse besteiras, eu beijei, abracei meus irmãos a força, peguei nossa cachorra no colo mesmo que ela estivesse soltando muito pelo. Não importa... em tudo há sacrifício se assim você observar, em tudo haverá sorriso se assim olhar. Eu caminhei, gastei meu corpo, peguei onda, quebrei junto com onda porque eu boto pra baixo em tudo. Eu desço todas as ladeiras com vento no rosto... eu tenho certeza de que vou morrer, só não sei quando. Pode ser nos 88 anos como gosto de pensar, mas pode ser amanhã... eu prefiro não saber, mesmo que pudesse, e ainda assim viver como um garoto, adolescente que acorda cada dia com a perspectiva de diversão. Tudo é perfeito... como é, em sua imperfeição, nossa gratidão! Eu vivo como se este fosse o último dia... então digo que gosto, que amo, faço um carinho, mudo minha rota, ganho tempo, perco o vento, mas ganho teu olhar. Eu vivo, com sabor de pizza, com sabor de cerveja, com chocolate meio amargo, com café no meio da tarde, repito se puder fazer com amigo, tudo e mais um pouco. Abraço e faço sentir querido quem amo, beijo no rosto os homens da minha vida, ainda mais as mulheres da minha vida. Pense o que quiser o mundo sobre amigo beijando amigo... eu liguei o botão do foda-se para as coisas que discordo, mas eu não deixo de expressar o carinho. Estou aqui hoje, vivo por este dia... amanhã já pode ser o último. Quando cai a noite e eu vejo que terminei o dia pensou que podia ter feito mais... eu quero sempre mais! Penso em aproveitar o máximo do dia seguinte com a esperança de não deixar nenhum momento sem ser bem aproveitado. Pode ser uns segundos no sol, comendo bergamotas, café com leite com minha heroína (mãe), procuro aceitar as pessoas como são, penso em algo para melhora-las, assim como outras fizeram por mim. Eu vou deixar um like para cada um... não pra receber de volta, mas ainda assim vou receber um coração, talvez um curtir, talvez um outro emotion good vibes. Amanhã sempre é o último dia... e se realmente for, não quero ninguém chorando. Quero festa... comemore nossa alegria, pensemos como nos ajudamos, como vamos deixar o mundo, como aproveitamos o dia como se fosse o último. No dia em que você se for, vou sorrir, pensando quanta coisa boa ganhei de você. Faça o mesmo por mim... não somos eternos, mas estamos aproveitando muito bem o nosso tempo. Se não estiver, mude! Mudar é preciso, afinal, amanhã é o último dia... sempre é! Vamos para um lual, viagem , sol, festa, pedalada... vamos viver o que há pra viver de melhor! Me chama... tem bergamota, bicicleta, viagem e muito mais!

Ela veio... ela foi!

Ela me ganhou quando voava, mas garantiu quando fez um acordo comigo, 2017. 
        Manhã de trabalho... acordei cedo, peguei o carro, trabalhei onde deveria, terminou depois do combinado, mas não tem problema, a gente acaba entendendo que sempre existe um motivo. E para quem vê motivo, acredita, se depara com a montagem destes frames que descrevem a vida, há uma serenidade. No carro, pensava em coisas que deveria fazer para terminar a semana em dia. Na minha rua... olhei uma pequena árvore radiante com flores coloridas de tom cor-de-rosa, em torno dela, uma borboleta preta. Voava rápido... mais rápido que a maioria dos olhos humanos pudessem suportar para entender forma e cor! Meus olhos, velhos, ainda são muito bons, para mim era evidente a beleza, ainda que tivesse visto apenas voando. Parei o carro... saquei a segunda câmera e montei uma objetiva (lente), conferi configuração e com a "paciência" que se instalou em mim para tudo que não controlo, apreciei os trajetos agitados da pequena voadora. Pousava rapidamente, muito rapidamente, mas nunca parou de bater as asas! Eu logo vi... já sabia como ela era. Pequena, inquieta, cheia de certezas... Dominava o destino como se fosse possível. Não que esteja errada, talvez eu esteja... mas ninguém pode viver em tal ritmo como se o mundo fosse acabar amanhã. Talvez, talvez sim, talvez não, eu, ainda não sei! Nada sei... na medida em que descubro o mundo, menos sei, mais entendo que não saber é sabedoria. Voava em torno de uma pequena árvore, inquieta, radiante, preta, sugando a luz, destacando suas manchas rosas como se fossem pequenas lâmpadas. Vai entender como outra da mesma espécie entende o desaparecer e ressurgir das manchas, como pode parecer isto quando abrem e fecham asas. Esquecemos destas pequenas mágicas... eu vi! Em certo momento, parei de tentar clicar, quase que num pedido de conversa. Ela concordou... parou se eu abaixasse a câmera. Alguns segundos e fiquei hipnotizado... tive tantas perguntas naquele momento. Nenhuma me foi respondida, evidentemente! É como se ela não gostasse de perguntas... despediu-se circulando em torno da pequena árvore fazendo-a de eixo, em torno disto estava eu... que pasmo, a vi subindo, em círculos imperfeitos, abrindo, como se fosse um espiral. Até que a perdi de vista... percebi que foi um momento. Ela me deu um presente, mesmo que insuficiente, uma proposta viável para dar certezas aos meus pensamentos. Acalma, qualquer ansiedade se dissipou com o vento... na memória, fragmentos bem visíveis de quem ela era. O destino me aproximou a ela, com o término posterior do trabalho. Tudo é como deve ser... no tempo, no vento, na condição existencial que merece e precisa. Eu... bom, tenho mais uma imagem de borboleta, um dos seres vivos que mais gosto, mas é mais que isto. Tive uma oportunidade... de ter, perder, crescer. Aqui, não mais a verei, vida curta teria a pequenina... eu, a minha, palpito nos 88 anos. Errado ou certo, já atinge o impossível para as borboletas, eu, tenho dádiva de coexistir observando-as, ano a ano. Ela veio até mim... ela foi! Foi para outros encantos, mas eu fiquei com um pedacinho dela, uma lembrança, da mesma forma, ela de mim! Ela veio por algum motivo, talvez... Sobre mim, parece claro, sou um viajante, me impressiono com facilidade e pelos motivos que me interessam. Eu, nasci sóbrio, mas vivo embriagado em minhas fantasias. Se é um problema, sou um problemático, gratidão!

No alcance das mãos...

Ciclistas pelo interior do RS. Foto: Roberto Furtado
              Muitas experiências vivemos da infância a maturidade... e quando falo em maturidade falo de um estado de consciência, não de ter chegado aos 20 anos. Somos tudo aquilo que passamos... as perdas, as conquistas suadas, o sucesso de ter conseguido executar algo depois de muito fracassar. E sabemos que só conhece o sucesso, quem compreende o seu oposto... de outra forma nem o sucesso tem sabor de conquista como deveria. Subir em uma bicicleta e percorrer um caminho com dezenas ou até centenas de quilômetros é um desafio que só o processo de insistência garante. Ninguém inicia no mundo da bicicleta com um trajeto de de 80 km... quem começa, começa com 5-12 km, talvez um pouco mais se estiver acostumado com outras práticas esportivas. Outras atividades ou práticas surgem com o tempo, da mesma forma, criar uma estrada com posicionamento seguro na sua realização é uma questão de vivenciar desafios. Consertar um pneu de bicicleta, realizar um audax com 300 km, percorrer a pé a maior praia do mundo ou o caminho de Santiago, quem sabe terminar uma faculdade, talvez escalar um pico de dificuldade 8-10. O que é importante para cada um, cada um vai saber... O que é relevante para a vida, também! Outro dia, vi um homem substituindo um estepe porque o pneu havia furado e, estava ele de terno e gravata, mas realizava a tarefa com eficiência. De outra forma, já vi um jovem que se quer sabia onde ficava a chave de roda e para qual lado deveria afrouxar as porcas. Já pensou colocar um macaco para levantar um carro sem pensar se esta firme o suficiente? Não havia ninguém pra fazer por ele... e eu disse naquela oportunidade: "Amigo, coloca o tapete do carro antes de colocar o macaco, este calçamento é escorregadio!"
Há coisas que aprendemos fazendo, outras, observando... mas quando um pai troca o estepe enquanto o filho permanece acessando o celular no interior do carro, tenha certeza de que ele não vai aprender nada, nunca! E pode custar até uns dedos ou quem sabe outro ferimento... evitar fazer, torna-se impossível, um dia, todo mundo é obrigado a fazer. Um adulto que se torna incapaz é resultado de vários ou todos os anos sendo poupado de praticar situações. É facilmente observado que os jovens que são estimulados, ou que passam muito tempo sozinhos, ou que não possuem tudo ao alcance das mãos... estes são os que geralmente encontram os caminhos para serem independentes. Jovens independentes se tornam adultos independentes. A diferença entre ter iniciativa e esperar é justamente ter alguém que resolva por nós antes de começarmos... não é garantia que fazer será sucesso, mas o sucesso de cada prática (simples ou complexa), virá de executar por inúmeras vezes. Excelência surge com a prática... nada que esta facilmente ao alcance das mãos, torna-se uma habilidade e em todo desafio surge um estalo de como começar algo que nunca foi realizado antes. Até "como não fazer" é um caminho para quem vai conseguir... depende apenas de começar, de pensar! Não pense por alguém, ensine a pensar... no alcance das mãos estará tudo que um vivente precisa quando ele estiver suficiente maduro e decidido para enfrentar o desafio que for. 

Durante a noite

Noite recém chegada, num céu do Bojuru, 2014. Foto: Roberto Furtado
         Há noites em que você se vê refletindo de uma forma que não é fácil dormir... elas são noites estranhas, carregadas de perguntas, alimentadas pelo dia que antecedeu, perspectivas dessincronizadas, talvez, mal interpretadas. Não gosto destas noites, embora elas sejam as noites que me trazem maior carga de experiência e desta forma ajudam a construir meu futuro. Para um bom entendedor, palavras complexas, positivas ou desencontradas, formam as histórias que o levam para a maturidade. E maturidade, ao meu ver, é o maior prêmio da longevidade. Não me serviria de nada chegar cada vez mais longe sem que esteja cada vez mais forte e apto a sobreviver com esta sabedoria. Aliás, me parece que sempre tenho mais a aprender, parece... sabe o que parece? Parece aquele filmezinho que você caminha em direção ao horizonte, segue caminhando por horas e o objetivo se distancia cada vez mais. Sobre a vida, em comparação ao horizonte, posso relacionar como objetivo o fim da estrada. Não importa que o fim chegue... me parece bastante óbvio como chegarei lá, uma vez que seja tão trivial que o fim é a única garantia. E só um tolo veria o fim como uma perda... e não como uma dádiva, de outra forma, nada se fez no caminho. O caminho... sim, ele acontece a cada minuto. Com sono, com sonhos, com boas ou estranhas oportunidades. Gosto disto... embora, muitas vezes, sejam evidências doloridas de um longo caminho. Não sejamos dramáticos e impositivos... as histórias são como são! Elas simplesmente acontecem... saboreia quem tem sensibilidade, sabota quem sabe como, dissolve quem pode, ignora quem nasceu com outra capacidade, são fatos! Ao meio da noite, um mau estar qualquer, traz a atividade de reflexão no meio do descanso. Ali, escuridão, olha pra teto e faz seu autor um encaixotado, ainda desta forma consegue ver o mundo e tudo que acontece. Deu vontade de ir ao banheiro... "e já que levantei, vou no terraço olhar o céu!" Lá fora, a umidade do sereno sobre tudo... uma camada fina expressa a qualidade do ar, mas o céu é limpo e a lua e com estrelas estão em seu campo. A lua, em sua majestosa luminosidade, não consegue ofuscar o brilho pequeno das estrelas oscilantes. Parecem quase piscar, uma intermitência energética que garante que estrelas sejam percebidas mesmo com menor brilho. Esquecemos, por um momento que lua é apenas um astro sem luz, próxima de nós, cuja luminosidade é rebatida e originada pelo sol. Ao fundo, centenas de milhares de verdadeiras protagonistas que chamamos de estrelas, mas que são fontes de luz... fontes com luz própria, distantes, ao sabor do infinito, que aqui próximo possuem representante e conhecemos como sol. O sol, uma estrela, a fonte de maior energia de todo sistema solar que conhecemos como casa... e neste assunto, vou parando, sou ignorante demais pra saber, mas aprendo diariamente coisas do mundo e as relaciono com meu caminhar. Presto atenção porque posso... imagine o potencial de sentir, escrever e oferecer aos demais algo pronto para pensarem. Sabe o que é? Gratuidade... e o valor disto é incalculável, pode não valer nada para alguns, para outros caminhantes do escuro é como oferta de estrelas que ditam a direção. Somos embarcações solitárias que trafegam na direção de um infinito. Não importa nada a não ser o ensinamento... ser grande ou pequeno, vai além da paternidade, é ir ao encontro das perguntas para presentear alguém. 
Eu... bem, não sei. Toda vez que converso com alguém sobre isto, parece que sou eu quem estaria perdido, mas sinto que apenas fiz as perguntas que a maioria jamais fará. Se é inútil perguntar porque as respostas não podem ser entregues, talvez. Acho que prefiro fazer as mesmas para, talvez, responder ao menos 3% do que conseguir ligar. Sei que minhas expectativas raramente são correspondidas com sucessão de fatos, regidos por outros humanos como eu. Colocar reciprocidade nas relações não é uma tarefa simples, de quaisquer natureza que sejam... contudo, sabemos que são tais experiências que nos trarão enriquecimento. Viver alguém sozinho é desperdiçar uma estrada cheia de adjetivos do aprendizado, pois somente um campo florido expressa o visual de um tom de cores extra no campo, assim como somente um coletivo de pessoas pode expressar a diversidade dos comportamentos. Como diz uma música: "Espero sempre mais..." porque de outra forma, não seria eu, seria apenas alguém com início tão igual ao durante, tão parecido com o fim. E se em breve me tornar alguma coisa de que posso gostar mais, deve ser porque o caminho me trouxe até aqui. Quando o silêncio me indagar dos porquês... espero que entenda, como eu, em grau de paciência incomum, talvez, expresse reciprocidade. Cumplicidade é uma palavra tão bonita no assunto entre silêncio e paciência, podem ser sonoramente escondidas, mas carregam centenas de palavras pelo olhar. Não sei se há mais estrelas ou palavras, mas acho que pouco importa. O importante é que sejam transformadas em questionamentos... dizia um sábio que nem precisa ser citado para ser lembrado: "O importante é nunca parar de questionar!"