Realidade

Um portador de necessidades especiais recebe café de feirante no Largo Zumbi do Palmares, Porto Alegre, RS.
Foto: Roberto Furtado
           Você só lamenta aquilo que perde... bem, talvez exista outro caminho para lamentar. Não tenho certeza de que se pode lamentar a ausência de algo que nunca se teve. Talvez sim... em um momento raro de lucidez e inteligência que o seu autor consiga imaginar um ideal simples e que não possui. Não é ser excessivamente teórico imaginar situações as quais jamais se viveu? Não tenho certeza de que seja possível, tampouco ousaria dizer que não é... A chave que abre uma descoberta é sempre o pensamento. Girar sobre os pensamentos é comum ao ser humano, mas uma fração bem pequena muda algo com uma ideia inovadora. As boas ideias são escassas... algumas vezes, seres humanos estudam para ter ideias, como os engenheiros e outros profissionais da criação, mas um que outro garante uma história. Criar... eis uma ação na qual sou vidrado. Fico imaginando minhas criações escritas, diferentes da minha fotografia... pois em fotografia materializo a realidade, em escrita crio fantasias, histórias e pensamentos. Ali descobri que havia um lado diferente em minhas duas habilidades... na fotografia, como fotojornalista, conto a verdade buscando ela como linha inquestionável sobre o fato. Não mudo nada de lugar! Na escrita... me tornei, de alguma forma, como todo bom sonhador, um ficcionista. Muito embora tudo origine-se de uma realidade, tudo se cria, como em uma pintura, como em um desenho. Não tenho dúvida desde que criei as linhas de pensamentos e as separei por caixas. Em cada uma delas, guardo, organizo, crio o start para desenrolar um trabalho. Num espetáculo, show... fico atento ao mundo que se monta, dele, tiro minhas emoções e mostro o que interessa. Abro as duas caixas, da realidade e da imaginação, transformando minha ação em criação! Seja o fotojornalismo uma realidade, se desenvolve emaranhado em minhas emoções. Portar a câmera e apontar para o que posso é uma sensação de liberdade, a minha posse de uma sanidade plena da criação. Sou um gerador de conteúdo, versátil! Tento, tirar o máximo da pior opção, tento ver o melhor e diferente de um campo farto. As profundidades, pés livres, luz abundante sobre um céu encoberto de nuvens. Há mais suavidade em um céu de nuvens do que em um céu de sol... a diferença entre sol e nuvens é a opção dramática do cinza, das cores desbotadas. Há quem prefira fotografar com céu limpo, mas eu prefiro o ardor da história. Tal sentimento pode ser percebido no ser humano... o drama vive, de outra forma não se venderia um jornal por tantas histórias lamentáveis. Desde quando jornais eram mais vendidos contando histórias bonitas... o drama vive em nós, mas não só dele vivemos. Vivemos de equilibrar a esperança... e esperança é somente existente no caos, no receio, no medo, no lamento, precisamos ter pelo o que torcer! Eu adoro fotografar o amanhecer e o entardecer, luz amarela, marcante, sombra negras que cortam o laranja sobre o mundo, sobre os rostos. Dá pra fazer drama colorido, mas é mais difícil, de outra forma o branco e preto não seria ainda tão desejado nas fotografias. Tenho tanto a aprender e aos 41 anos lamento ter demorado tanto para saber o que mal sei hoje. Tenho sede, mas uma vida é curta demais e não posso frenar o trem. Sinto-me confuso... poderoso com a câmera, insatisfeito com as resultantes, ainda que consiga com alguma frequência imagens das quais me orgulho. Posso mudar apenas o que depende de mim, do mundo, espero só o que é real, mas... fantasias se montam partindo da realidade. E tenho certeza... entre a realidade e uma outra realidade, muda apenas o enquadramento. A individualidade é o que nos permite criar com o valor do diferente!
E sobre o que escrevo... não é tão bom assim, na verdade sou um fotojornalista e como tal profissional, eu deveria saber legendar uma boa imagem. Na medida em que envelheço, menos sei... anseio pelo dia em que começarei a dominar o conhecimento, mas algo me diz que somente os enganados possuem a certeza. 

Audax 200 km do Vinho 12.11.2017
















Fotos: Roberto Furtado / Sociedade Audax de Ciclismo
          As coisas andam meio paradas no Bikes do Andarilho... mas eu tenho trabalhado bastante. Já tem algum tempo desde que fiz a última postagem, mas isto não diminui em nada o amor pela bicicleta e tampouco a admiração que tenho por estes caras aí. Já fiz isto centenas de vezes... fotografei os ciclistas, acompanhei todo trajeto até a chegada dos primeiros, do primeiro pelotão. 
Eles foram bem rápido... fizeram em pouco mais que  horas os 200 km. Nada mal... nem necessário, pois estamos falando de superação e não competição. Preciso sempre frisar isto para quem chega por último aqui nestas bandas... audax é prova de superação pessoal. Entre o primeiro e o último há apenas uma diferença... o nome de cada um! Todos são únicos para nós! Ponto final!
Esta prova foi importante para nós, ligados a SAC. A Sociedade Audax de Ciclismo completou 10 anos e assim estamos produzindo um material para documentar. Publicaremos um material para homenagear aos ciclistas, colaboradores, apoiadores, etc. É uma marca importante da longa distância... e rumo ao infinito nós vamos. 
Deixarei de muita conversa e vou logo publicando o link com as mais de 1000 imagens... fico feliz por estar presente neste momento. Meus parabéns aos amigos, aos que se superaram! 

Reflexões de um aprendiz correrino...

Centro Estadual de Treinamento Esportivo (CETE). Foto de celular: Roberto Furtado
       Todo mundo tem suas manias, expectativas, perspectivas e experiências de vida... tudo isto forma o que chamamos de personalidade. É a vivência até o presente que no conduz pelo futuro, mas isto é recalculado minuto a minuto... sempre com base nas experiências. Quando eu fico muito cansado e alguém me diz uma coisa de que não gosto muito ou que não estava esperando, fico meio frustrado e pensativo. Aí, acordei com aquela vontade de correr... primeiro porque a corrida é energética e positiva para a minha mente, depois porque durante a corrida eu tenho ciclos de reflexão e parece que as ideias fluem muito bem. É interessante a gente se conhecer... praticamente troquei a bicicleta pela corrida por este motivo. A bicicleta me fazia praticar por muitas horas e eu, além de não dispor de tanto tempo assim, ainda por cima refletia tempo demais. Reflexão de esporte tem prazo definido para mim... até 30-40 minutos. 
Acordei sentindo o gosto da corrida... aí me lembrei que passei muitas horas em pé e não tive tempo para me alimentar direito ontem. Então, naquele momento percebi que não teria bom desempenho na corrida, mas que iria de qualquer jeito. Eu queria sentir o sabor do vento... e consegui. Eu fiz 5 km... usei o STRAVA. Meu primeiro km foi o mais rápido até hoje... fiz em 4 minutos e 6 segundo, dá uma velocidade média de uns 14,7 km por hora. O segundo km foi o quinto mais rápido que fiz até hoje... 4:23 minutos. Aí comecei a ficar enjoado... kkkk e tudo foi apenas empurrar com a barriga. Mesmo assim, meu pace médio deu 4:35 minutos, fiz os 5 km em 22:59 minutos. Meu melhor tempo desde que voltei a correr neste últimos 6 meses. Tudo indica que estou correndo cada vez mais rápido, mais forte, mais energizado. Saí da pista com uma cabeça leve... eu fiz um bom tempo, talvez um dia chegue aos 20 minutos que são o meu grande desafio. Se eu não conseguir, bem... acho que serviu pra me dar confiança, saúde e motivação. Eu fiz grandes fotografias... grande trabalhos, me superei, na dor! Já não tenho dúvida sobre minhas capacidades todas... eu tenho certeza do que posso fazer, dúvida apenas sobre o dia de amanhã. Neste momento estou pensando nos amigos... que dão palavras ótimas, que ajudam e ajudaram em todas as fases. Aqui... bom, correr é diversão para mim. Eu queria fôlego pra pegar onda... acho que já tenho! Me considero vitorioso... no trabalho e na diversão. E me deu vontade de abraçar todo mundo... então, olha só o que a corrida faz por mim. Isto que sou apenas um aprendiz... 

Quando é amor...

Celular fazendo video em show do Paul McCartney. A foto é deste que vos escreve... adoro foto de foto!
            Um momento de cada vez em uma fase de perspectivas novas e energias que se irradiam... fiquei confuso muito tempo. Eu falo de solidão... e acho que todo mundo já passou por isto alguma vez na vida, ou quase todo mundo. Eu... não sei explicar se me pedirem, nem sei se preciso ou se quero. Eu falo sobre isto, se for natural, se souber responder. Eu digo que ninguém sabe o que passa na cabeça dos outros, muitas vezes nem a gente mesmo sabe o que definir sobre o presente ou futuro. O presente deve ser vivido, o futuro simplesmente acontece. Fiquei muito tempo pensando no raio da solidão... estive muito tempo sozinho, por trabalho ou por escolhas, mesmo quando tinha alguém. Depois de um tempo que voltei a ser sozinho... e sozinho é uma condição exclusiva da ausência de alguém ao teu lado, compreendi o mundo de uma forma diferente. O caminho é um ciclo de reflexões, onde você se depara com uma pergunta, vai embora sem resposta, encontra ela novamente, responde do jeito que puder, até que, um dia, encontra uma forma confortável de ver o assunto. Eu tive a impressão de ser sozinho... mas então, resgatei uma amizade e outra, e encontrei conhecidos, antigos colegas, de colégio, praia, etc. Amigos antigos sempre fizeram parte da minha vida... as vezes não os vejo muito devido a distância, algumas vezes outro motivo, não importando o tempo e o vento, eles ressurgem. Tenho amigos que tiveram filhos, os vi nascer, cresceram perto de mim... me chamam de tio, me abraçam como familiar, dizem até que amam. Entende isto? Tenho uma amiga com quem saio seguidamente, outra com quem janto algumas vezes, um amigo me convida pra comer pizza ou churrasquinho e não bebe cerveja, outra que me convida para o chimarrão, outra para fim de tarde e por do sol, uma amiga caminha comigo e sempre me manda mensagens, outra me liga pra saber como vão as coisas, tem mais uma que me pede pra cozinhar, tem amigo que me pede abraço, uma delas poderia ser minha mãe, mas é tão bom passar o tempo com ela e, vc não imagina a energia de uma mulher com quase 70 anos, grande fotógrafa. Tenho um amigo que cozinha pra mim, outro me leva pra pescar, tenho amiga que pede colo, tem amiga que diz ter saudade, outra me manda mensagens no natal e aniversário, outro é meu tatuador e me deu uma família, que aliás, vejo pouco. Tem uma garota com quem já fui casado... e a gente toma café pra não perder contato. Não posso esquecer que um casal de amigos, estes dias, me deu um sobrinho e sempre me ligam ou mandam mensagens pra saber como estou. Nem sei se mereço tanta atenção assim... mas é ótimo! A vida... não tem formato, nem sexo, nem padrão, nem receita de bolo. Elas, quase todas, foram e são apenas amigas, sem diminuir os amigos, mas as mulheres são ótimas companheiras pra tudo. Quando a gente sabe o lugar de cada pessoa no coração da gente... nada pode mudar isto. Eu tive a cara de pau de pensar que era sozinho, mas a verdade é que eu não procurei por estas pessoas quando assim me senti... foi então que percebi, estou muito menos sozinho que qualquer outro que possui uma família grande. Quando falo de amor, não confunda com sexo... não entenda a vida com os seus olhos. Olhe o mundo e deixe que ele se mostre, quebre os formatos. Homem pode ser amigo de mulher, pode ser hetero... cada um desenha sua vida como quiser. E sabe aquela história de solidão? Aquilo não existe... é um estado psicológico, ao meu ver tem só um remédio, chama-se foco no amor verdadeiro. Ilustro o meu mundo com minhas fotografias, talvez muito mais com minhas palavras, mas acima disto tudo... com amor!

O meu lugar...

Fiquei de plantão... todo fotojornalista, uma hora ou outra, ou muitas vezes, vi fazer plantão! É uma foto realizada com temporizador de 5 segundos. Foto: Roberto Furtado
          Refletir é o que mais faço na vida... a reflexão é uma importante ferramenta na minha construção, pessoal e profissional. Eu apareci aqui nesta terra com um único objetivo de vida... viver! Acho muito estranho isto das pessoas virem para cá, para esta existência material, sobre a face da Terra, com objetivo de ganhar dinheiro. Talvez, ganhar dinheiro possa ser uma consequência, mas objetivar isto... me parece um ato meio incoerente, pra não chamar de estupidez. Eu caminhei muito... e quando alguém diz pra mim: "mas tu veio de lá caminhando?" Eu fico pensando que coisa estranha alguém achar que solução pra tudo é carro, bus, ou seja lá qual for o veículo automotor. Eu nasci descalço, saudável, com fortes pernas e braços... um pulmão fraco, mas um coração forte. No fim, o pulmão endireitou e agora eu corro, pego onda, mergulho, pedalo... e tu tem que ver a minha face de felicidade quando eu faço uma destas coisas. O meu lugar... eu pensei por muito tempo onde era o meu lugar. Acho que não existe um lugar pra mim... a minha mãe dizia desde que eu era pequeno, que o mundo é a minha casa, que eu era o vento, que ia correr, conhecer ambientalistas e a natureza. Me deslumbrava com tudo... eu tinha uns 10-12 anos e pulava de lugares altos que deixavam os colegas de queixo caído. Eu corria forte, tomava vaca de onda grande, me quebrava as vezes... como aquela vez que dei de cara no banco de areia, mas pode ter certeza que a onda era grande. Sim... eu quebrei uns dentes, cortei o lábio e fiquei até tonto com a porrada. E sabe o que aconteceu? Eu continuei fazendo a mesma coisa... e se eu passaria pela mesma coisa? Sim... eu sou o ontem, pra ser um presente que se apresenta com esta configuração. O meu lugar... é este aqui. Escrevendo, pensando, fotografando... eu sou um profissional da comunicação. Um fotógrafo com extras... e deixe estar ou ser! Continuo lutando para crescer profissionalmente, pra ser melhor, não pelo dinheiro. Estou aqui nesta terra, por enquanto, pra ser o que eu puder ser de melhor... bem lembrado, pelo que disse, fiz, ou fui. O tempo... não o perca correndo atrás de coisas que não te farão melhor, pense nos teus amores, eles são a única coisa que realmente importa. Quanto mais me aproximo do fim da estrada, mais paz encontro... evoluir pra ser feliz. Cheguei na metade da minha caminhada... espero ter algumas mãos pra pegar quando estiver na hora de partir. Isto me traz paz! O resto... pouco importa! 

Para trabalhar, para amar, ser!

Duca Leindecker, no Opinião, em Porto Alegre, no dia 09.10.2017, foto: Roberto Furtado
          Dizem que os taurinos são pessoas ligadas a arte, sensíveis e com muitas habilidades ligadas a esta sensibilidade, que também são teimosos e fortes. Toda vez que leio coisas sobre o signo ao qual pertenço, me reconheço em muitas coisas... em quase tudo pra ser sincero. Sou sim, um ser humano cheio de defeitos... alguns amigos me dizem modesto, mas na verdade não me acho tão grandioso assim. Eu sou, sempre fui, um aluno nota cinco em cálculo... mas se me pedires para fotografar ou escrever, provavelmente me sairei muito melhor do que esperam. Não sei se este lance designo possui fundamento, mas como é baseado na movimentação dos astros, acredito que possa ter uma influência em nossas vidas. De outra forma, não haveria como explicar as marés e as luas e seus horários ótimos para pescar. E se me perguntares sobre isto, não vou poder negar, sou pescador desde criança, e um dia fui convencido de que isto funciona, mesmo que pareça fora de nosso alcance. Os signos, cada dia que passa, me parecem mais e mais corretos. Os medos, receios, teimosias, dificuldades e qualidades se apresentam nas pessoas pelo período do ano em que nasceram. Tudo isto parece estar diretamente relacionado aos nossos sonhos. E aliás, quem não sonha, me parece muito empobrecido espiritualmente. Eu sonho muito, penso muito... caminhei muito mais que a média para chegar aos 41 anos. Fiz tudo de um jeito e mudei tudo... como um péssimo exemplo de taurino, mudei tudo, aos 30 anos, mas mostrei um teimoso em fazer dar certo muitas coisas. Se me iludi em alguns momentos, como um bom taurino, sim... me iludi e desisti de momentos, situações e pessoas que se mostraram diferentes dos meus ideais. Se tenho ideais? Muitos... e aprendi a separar as coisas em caixas. As minhas emoções ficam separadas por finalidade. Posso ser um homem forte, mas choro... posso sentir a dor e até pensar que a coisa ficou feia, mas neste momento não verá uma lágrima. Eu choro por coisas belas, por sentimentos que colidem entre beleza e tristeza. Juntei tudo dentro do meu peito... coloquei todo carinho, força e colorido dentro de uma caixa. A caixa do coração me faz produzir, me envolver com as pessoas, profissional ou pessoalmente, assim vou construindo uma trilha de histórias. De vez em quando eu olho pra trás e vejo ou lembro, sinto no mínimo simpatia, por vezes muita saudade. Algumas pessoas não mais consegui me afastar... preciso saber como estão, outras, me contento com os desencontros da vida. Se estão perto ou longe, me importo com todas, mas algumas, quero sempre saber. Ser taurino... acho que isto não tem a menor importância, me parece muito mais importante como me comporto junto de algumas pessoas. O que elas despertam em mim... eu gosto de como me sinto, por causa destas pessoas. Eu me sinto melhor por causa de algumas pessoas. Acho que sou um bom amigo... de homens e de mulheres, mas isto é difícil de dizer. Da conversa com as mulheres, me sinto sempre melhor que nunca, embora alguns amigos homens me mostrem boas reflexões e risadas. Acho que vestimos um físico que nos vende como homens ou como mulheres, mas não é muito justo. Parece que isto faz com que confundamos amizade e sexo... aqueles que me conhecem sabem bem do que falo. Quis a natureza, e assim penso, que eu fosse homem e hetero, mas tenho amigos e amigas bem melhores que eu que não são heteros e com eles aprendi muitas coisas sobre amizade. Tudo se confunde... trabalho, amizade, amor. O que somos? Acho que somos máquinas biológicas, complexas, talentosas, classificadas por signos, bandeiras, carteiras de identidade e a cada dia criamos mais e mais "emplacamentos" para nos rotular. Eu sei o que sou... o que quero ser, quem quero ter por perto. Sou um fotojornalista, homem, sonhador, taurino... mas tudo isto, criamos! Somos apenas humanos... 
A música Bossa, de Mônica Tomasi, cantada ontem por Duca, diz que cada um é como é... "há quem construa os aviões, escreva as revistas e dedilham violões!" Viva o livre arbítrio... das escolhas, dos motivos, do andar dos acontecimentos... assim nascem as estradas! 

Pra ser lembrado...

Trabalhando num brevet da Sociedade Audax de Ciclismo, em Cambará. Foto do incrível Ronei Carneiro.
          Não sei de onde sai esta coisa da gente tirar fotografias e recordar... pois, de verdade, importa apenas o presente. Contudo, há alguma coisa no passado que é tão importante quanto o presente. Acho que tem uma relação especial com momentos e as pessoas queridas das nossas vidas, também trajetórias profissionais e, outras situações impossíveis de esquecer. Jamais vou esquecer alguns amigos, independente de haver fotos, tampouco meus avós! Meus pais são do meu convívio... e sabe o universo quanto sou grato e feliz por isto. Sinto falta de tanta gente... dos meus amigos de infância, do meu avô, da minha ex mulher, de uma ex namorada, colegas de faculdade, amigos de praia, etc. Saudade é um sentimento bom pra ser guardado... e te fazer amar de forma mais eficiente quem estiver na tua vida. A chance é agora... viva o presente com o aprendizado do passado!

No trabalho...

          Trabalhei duro para ser reconhecido como um fotojornalista especializado em bicicletas... mas evidente que fiz outros trabalhos com amor, suor e sangue. Na bike... com bike, seja como for, fiz mais de 400 pautas, para mídias, para veiculação de eventos de toda relevância, de passeios a mundiais. Eu perdi as contas... sabemos que eventos de bicicleta acontecem apenas nos sábados e aos domingos. Então, anota aí... foram 400 domingos que abri mão de momentos pessoais em favor da minha carreira. Cada vez que meu telefone tocava pra uma solicitação de trabalho... "quer fazer oficialmente a Brasil Cycle Fair?", ou "topa fazer a volta internacional?", "escreve sobre tecnologia para vender nosso produto, faz teste?"
Ronei Carneiro é um amigo... fotógrafo aparentemente amador, mas tem um belo olhar. Sou grato a ele por esta foto acima... pela magnitude e informação que ela passa. Nós, todos nós, queremos fazer coisas... sermos algo ou alguém, executar uma tarefa, simples ou complexa, que possa descrever algo como parte de um todo. Sei exatamente o meu lugar... o meu lugar é bem localizado quando as pessoas pronunciam Roberto Furtado, o fotojornalista, o Beto dos bordos das pistas de downhill, FourX, brevets de longa distância. O trabalho que tanto gosto... umas duas vezes quase me matou, mas tive sorte e estou aqui. O risco em tudo existe, nas estradas, nas mãos de pessoas que não são como nós... como nós somos? Construtores de legados... isto é o que nós, pessoas de bem, somos!
Eu não precisaria mais escrever sobre mim... todo mundo que já trabalhou comigo lembra, sabe! Eu não era ninguém além de um amor para os meus antes de tudo começar... Agora sou lembrado mesmo quando não sou visto. Há prêmio maior para um profissional? 
Ninguém sabe onde vai parar, nem como vai ser o amanhã... mas eu garanto, você pode ter um final feliz se trabalhar com paixão. Ao final do dia, olhe para trás! Veja tudo que foi feito... agora pense nos últimos 100 dias... depois pense nos últimos 10 anos. Se você se sentir orgulhoso, então fez tudo certo... não é o dinheiro! É como as pessoas pronunciam teu nome... você sabe que é com carinho ou respeito! 

Agora sim...

Balonismo de Torres, 2017. Foto: Roberto Furtado
          Durante muito tempo tive pensamentos que antes não compreendia... hoje, eu os entendo! Queria ser ou fazer algo legal, trabalhar as minhas habilidades e me transformar em algo que só o tempo daria formato em toda precisão. Levei 30 anos pra saber o que seria isto... e quando descobri tive receios e medos se eu conseguiria ser bom o bastante para acalmar a minha própria alma. Estou certo que ninguém é maior crítico que eu mesmo sobre meu trabalho. Sabia o que desejava e embora almejasse um lugar, tinha medo e não conhecia a trajetória... dá medo não saber se é possível encontrar a trilha que te leva para um lugar que você nem sabe onde fica. Muitas vezes é preciso apenas acreditar e sair caminhando por lugares que não passam confiança... mas ao fim, tudo faz sentido. Passei a amar fotografia como uma linguagem de uma forma que não imaginava... o valor da minha vida, embora em primeiro plano, parecia não ser grande o bastante para expressar quanto isto significou e significa para mim. Uma amiga, disse-me algo, recentemente: "Tens um brilho no olhar, e agora que estas falando do teu trabalho, isto esta acontecendo!"
Eu acho que isto acontece todas as vezes em que mergulho em algo que me traz felicidade... a fotografia me traz isto sempre! E outra situação me leva para os mesmos sentimentos... as pessoas! Evidentemente que um apaixonado por imagens é também apaixonado por pessoas... de outra forma, para quem ele mostraria isto? Como um pop star da música, para quem ele faria a música valer cada contorno da emoção.
Pensava... e disse a um amigo: "cara, imagina se morro antes de fazer as imagens que sempre sonhei!" Ele me disse: "tu não vai se importar se isto acontecer!" E eu respondi, "mas eu vou saber agora que ainda não fiz. Então, preciso que chegue este dia das grandes imagens!"
Bom, hoje penso que se me acontecer algo, deixei algumas boas fotos... ilustrei revistas, jornais, sites, redes sociais! Milhares de imagens são vistas no facebook nos perfis de pessoas que foram registradas por mim. E as imagens pelas quais me apaixonei foram realizadas no período mais estranho da minha vida... quando eu mergulhei em nostalgia, minha poesia fotográfica se tornou mágica. Passei a ter não apenas maturidade fotográfica, mas também a sorte invadiu a minha vida. Eu fiz imagens que as pessoas diriam ser a hora e o lugar certo, mas se pararmos para pensar numa sucessão de sorte como competência profissional teremos um novo significado e resposta para tantos acertos. Dedicação é natural em mim... sorte, acho que sorte vai ser viver mais 50 anos fotografando. Estou confiante de que consigo, mas estou mais confiante ainda que posso transformar meu entorno com o meu trabalho. Se pessoas felizes mudam o mundo... e pessoas ficam felizes ao simples observar de uma foto, então esta é uma relação de viabilidade. Estou certo que te vejo por aí... onde o mundo acontece!

O tempo que escorre...

os grãos caem, o tempo passa, crianças viram adultos... O tempo? Destino de todos! Foto: Roberto Furtado
          A noção sobre o tempo e o espaço é algo que se constrói ao vivenciar os ganhos e as perdas... as primeiras coisas que fazemos na vida é olhar para algo e tocar. Esta relação observar, utilizar nossos olhos e então alcançar com a mão para conferir o formato, nos permite criar a noção espacial e precisa de tudo. Ao passar das experimentações naturais do período, o ser vivo que deixa de ser um bebê, ganha entendimento de que apenas os olhos são suficientemente necessários para conhecer o mundo. Ainda que por vezes coloquemos novas formas ao tato, pois aprender é uma ação infinita... morre o homem de velho sem saber a fração que deveria. Em algum lugar, sozinhos ou acompanhados, vivenciamos as experiências que guardamos na memória. Ter uma testemunha de um fato, nos permite dialogar sobre este algo. E assim, mais madura é a reflexão pelo simples gesto de compartilhar. Certa vez li um livro, "A formação do amor", se não me engano, onde o autor apontava o amor como forma de se relacionar com todos. Não se tratava de amor entre duas pessoas, mas sim sobre as formas de amor do mundo, nossas relações com amigos, família, e enfim, também ao companheiro(a) que por ventura exista. A grande questão é sobre o valor e o verdadeiro amor ao próximo, pois tende o homem a viver de forma egoísta se afastando do que realmente interessa. A grande sacada não é se nós aprendemos o que é importante, pois muitas pessoas, a grande maioria dela, aprende tardiamente o valor destas relações e como deve protegê-las. É comum ouvir de pessoas com idade avançada os relatos de arrependimento sobre como observar o mundo. Elas, nós, queremos praticamente o mesmo em variações próximas do carinho pelo próximo. Ouvi um relato de um velho amigo, homem de idade avançada, que cometeu muitos erros. Ele teria vivido uma vida de traição, tendo várias mulheres durante o casamento, algo que acabou encerrando o casamento que possuía... mas mais do que isto, degradando toda estrutura social em torno dele. Ao ponto de que os filhos não queriam saber dele, tampouco restaram amizades para apoiar-se. Numa conversa demorada, uma frase não esqueci. "O tempo escorre tão rápido..." e "eu não consegui retomar as pessoas da minha vida!", aquilo cortou-me o coração, mesmo que ele tenha sido responsável por cada detalhe do destino. Outra frase que me deixou refletindo... "tive tantos amores e acabei sem nenhum para segurar minha mão!", neste momento fiquei com vontade de dizer que amor são sentimentos correspondidos, mas não disse. Possivelmente muitas mulheres tenham amado aquele velho homem, mas ele não correspondeu. Vivendo de forma a pensar no momento, apenas, impediu a construção ou manutenção do que era mais importante. Perdendo a família e os amigos no elo do respeito, e sendo desatento com a gentileza, o velho homem criou as próprias barreiras. No entendimento que tenho sobre o amor libertar a nós mesmos, é através de nossas ações que geramos os amigos para sentar em um banco de praça. E a qualidade destes amigos é um reflexo de você mesmo. 
Ah, sobre o tempo, bem... quase deixei para falar dele em outro momento, mas ele esteve presente durante todo texto. O tempo escorre... se estiver bom, anda ligeiro, se estiver ruim, demora! Levei muito tempo pra entender que viver intensamente é diferente de ter pressa... eu vivi e vivo intensamente, pois a cada minuto o tempo escorre. Como os grãos que parecem infinitos ao cair, os minutos, se vão! Os grãos são os fracionamentos de nossas vidas... são partes que se esgotam, que devem ser aproveitadas. Eu abraço meus amigos, amigas, beijo no rosto, dou todo carinho sem malícia. Espero o mesmo, mas não cobro... deixo que cada um descubra por si como é bom ou importante, exceto agora. Escrevendo estas linhas deixei um pedacinho de reflexão. Me transformei por alguém, foi um amigão que me mostrou isto... e ele segue fazendo, e eu sigo fazendo, e já vi outros fazendo o mesmo que nós, contaminados por alguém que antecedeu a experiência. O tempo... um fenômeno incrível, ele nos parece inimigo, mas ao fim, se perceberes as importâncias do mundo, verás que se não fosse ele, não chegaríamos à estas conclusões. Espero que você perceba isto...

Infinito pensamento...

        Estive em muitos lugares... bem menos do que gostaria, mais do que poderia, aquém das minhas expectativas. Tenho duas características contrapostas... sou um vivente apegado demais as pessoas; e possuo um raro coração andarilho. Eu tenho um desejo muito grande em viver e conhecer o mundo... mas não consigo me imaginar em duas possibilidades. Na primeira, ficando longe muito tempo de casa. Na segunda, meus amigos, e as novas pessoas que conheço longe de casa, me deixam com uma saudade arrasadora. Vivo assim, com medo de não ir, com medo de partir, com medo de estagnar, com medo de mudar! Uma nova amiga... não disse, mas olhou pra mim e com sorriso me motivou a perguntar: "Me achou esquisito, né?"
Eu vi... nos olhos dela, algum tipo de surpresa, algo que sei que ela não vira até agora, talvez uma que outra vez. Sei que sou formatado de outra maneira... e ela respondeu: "Tu não é esquisito, é diferente! E eu gosto disto..."
Fiquei pensando nos meus ciclos de ir e vir. Já ouvi tantas vezes isto... de amigos, amigas, até de gente estranha.
Ao que parece, somos, todos, especiais para alguém. Se tenho pessoas especiais... algumas. Me ocorre o pensamento sobre algumas quando o assunto é amizade e carinho. Ficar longe é desafiar a saudade... acho que descobri minha fraqueza durante o desenvolvimento deste texto. Até então, me sentia forte para atividade física até mesmo machucado. Prefontaine, lendário corredor, dizia que se aprende a superar a dor para ultrapassar os limites. Seria apenas para um tipo de emoção restrita? Posso usar isto pra amassar a saudade mesmo sem ver as pessoas? As vezes, tenho vontade de ir, cada vez menos penso nisto. Cada dia que passo penso em formar raízes, sentar ao lado de alguém num banco de praça, talvez de frente numa mesa de café. Pode ser também ao final de tarde, depois de umas ondas, com café, bolo e boa prosa. Encontrar alguém para isto parece muito mais difícil na prática... mesmo que você não procure, ou mesmo que encontre, tudo que houver na vida, as tais bagagens, tornam o emparelhamento difícil. Sejam ambos boas pessoas, tenham afinidade, o sincronismo parece ser uma tarefa de paciência, talvez nem mesmo atingido por ambos. Ou vejo tudo assim, afinal, sou um romancista!

As pontes

      Quando estive na ponte do Brooklyn me dei conta que estaria em uma das pontes mais famosas do mundo. Quando estive na Golden Gate, pensei a mesma coisa... Ali, percebi que quase toda estranheza do mundo, em algum momento pode passar por estes marcos. Estas pontes são como portais, funcionam como um funil gigante, obrigando todo mundo a passar por esta estreita estrutura em forma de caminho. Em algum momento da história as pessoas de diversos lugares do mundo, as vezes de um mesmo lugar, passarão por um lugar como este. Quantas histórias você já ouviu sobre ter conhecido alguém que já esteve no mesmo lugar que você, antes mesmo de terem se conhecido. Compartilham de experiências e histórias parecidas, se afastam e se aproximam, recriam novas estradas em conjunto... e entendemos como destino. As estranhas coincidências...

Ela?

      Ela surge algumas vezes no meu pensamento... eu pensava nela quando nem sabia quem ela era. Imaginava, ela me perdeu e me ganhou algumas vezes, o rosto mudou, como eu! Eu quis ser sempre dela, mas aprendi que não poderia... então, quando ela foi embora, ela veio, de novo, outra identidade. Não se parecia com a primeira, nem com a segunda, menos com a terceira... tinha gênio forte como uma delas, mas a inteligência era notável. Sei que ao conhecê-la, percebi que não existia um homem bom o bastante para ela. Não era eu... menos os outros que vi por aí. Talvez ela nem precise de alguém, talvez seja apenas machucada, talvez se convença com o tempo, talvez veja em mim mais do que eu mesmo vejo no espelho. Ela não se afasta, não se permite aproximar mais que algumas horas... não confia tanto, nem me engana quando me olha nos olhos. Eu olho todo mundo nos olhos, pois tenho uma estranha habilidade de me conectar. Confesso que não me apego a muitos olhares, mas alguns, me apego facilmente. Eu os coleciono em minhas memórias e gosto de guardá-los vivos, como se fossem os olhares para os quais eu olharia para sempre. Eu queria ter nascido diferente... um amigo disse para mim que jamais se apaixonou de verdade, nunca gostou de alguém... eu, bem, acho que fiz isto umas três, talvez ou quatro vezes na vida, o resto foi carinho. Uma das vezes transformei ela em esposa, mas um dia acabou. Acho que a receita é variável como variam os gostos... da primeira, da segunda, da terceira, não mais gosto. Da última, puxa... ainda sim. Espero que passe logo... ou que ela se convença logo. E isto que tenho... não sei se jogo fora, se guardo no bolso, se dou pra alguém. É um infinto pensamento...